Crise de Kosovo divide intelectualidade francesa Do correspondente Gilles Lapouge
Kosovo, 31 (AE) - A dúvida sopra como uma borrasca no mundo político e intelectual francês, principalmente desde que a "chave russa" (Primakov) que o presidente Jacques Chirac aconselhara ser utilizada recusou-se a girar na "fechadura" Milosevic.
Uma prostração reina aqui: o que acontece conosco? Como, em tão poucos dias, chegou-se a esse caos? Todos esses aviões tão brilhantes, tão cheios de morte e, na verdade, tão piedosos. E esses pobres de Kosovo que se quis salvar e de quem se organizou o pior massacre, no meio do êxodo?
Consequentemente, os intelectuais saíram de suas trincheiras e casamatas com suas canetas. O que é bom, com os intelectuais é que têm uma enorme quantidade de soluções. Eles exageraram um pouco mesmo nisso, e se fosse preciso obedecer, hoje, às dez petições assinadas desde ontem pelas melhores cabeças francesas, seríamos obrigados a fazer tudo ao mesmo tempo: a guerra e a paz
a divisão do Kosovo e sua reunificação, sua independência e sua submissão, e etc.
Na primeira página do Le Monde de hoje duas personalidades fortes, Marie-Françoise Alain e Antoine Garapon, horrorizados com a tragédia infligida ao povo de Kosovo, e além disso prevendo que a solução natural consistiria em dividir a província entre uma região sérvia (rica) e uma região kosovar (pobre), mostraram indignação. A nenhum preço, dizem eles, deve-se "fugir" para essa solução indigna. Se necessário, para proteger os kosovares, é preciso considerar um recrutamento militar.
Por sua vez, os intelectuais de esquerda - entre eles, Pierre Bourdieu - elaboram que a ação da Otan reforça Milosevic, encurrala o povo de Kosovo até a morte e arrisca uma conflagração dos países vizinhos. Pior ainda, para Bourdieu e seus amigos, a tática escolhida pelos aliados "leva à legitimação do papel da Otan, fora de qualquer quadro internacional de controle". E demandam a suspensão dos bombardeios e a instauração de um procedimento de autodeterminação (Façam, então! Boa idéia!).
Como sempre, o melhor texto é o de Régis Debray, publicado hoje na primeira página do Le Monde, com o título de "A Europa sonâmbula". Condenando o conformismo intelectual que levou o mundo a esse desastre, mostra que a Europa se deixou intoxicar e se deixou levar pela embriaguez americana.
"Assim, impôs-se como inevitável o fantoche populista do combate das essências (democracia contra as forças do mal) onde haveria necessidade de uma ponderação com as abelhas e de um conhecimento meticuloso das cicatrizes seculares para conciliar a justiça e a exatidão".





