Crise da migração - A Europa ferida moralmente
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quinta-feira, 10 de setembro de 2015
Rafael Fantin<br> Reportagem local 
A onda de refugiados em busca de uma vida mais digna na Europa provocou uma série de tragédias que chocaram o mundo, entre elas, a morte do bebê Aylan, cujo corpo foi encontrado na última semana em uma praia da Turquia após o naufrágio de uma embarcação com imigrantes sírios. Além disso, 71 refugiados, sendo quatro crianças, morreram asfixiados dentro do caminhão de um frigorífico na fronteira da Áustria com a Hungria, na tentativa de entrar ilegalmente no Velho Continente. Cinco pessoas foram presas acusadas do crime de tráfico de pessoas. Nesta semana, uma cinegrafista húngara foi demitida após agredir refugiados sírios quando os imigrantes rompiam um cordão de segurança, próximo da fronteira com a Sérvia.
Na avaliação do coordenador do curso de História da Universidade Estadual de Londrina (UEL), professor Marco Antônio Neves Soares, as mortes dos refugiados e os inúmeros naufrágios provocaram a opinião pública e pressionaram a Europa pela abertura das fronteiras e atendimento dos refugiados, apesar da xenofobia de parte da população apoiada pela extrema direita em países como a França. "A visão de corpos boiando e a morte de sírios e africanos dentro do caminhão ferem moralmente o continente europeu, que até então virava as costas e estava inoperante", analisou.
Soares disse que a sequência de tragédias motivou a discussão de medidas para receber os imigrantes no Velho Continente. A Alemanha prevê 800 mil pedidos de asilo até o final deste ano e cobra um plano para distribuição dos refugiados em outros países que compõem o bloco. "A União Europeia (UE) deve debater cotas entre os países com investimento per capita para programas de assistência social e cultura para atendimento dos refugiados", informou. A discussão na Europa também pressiona os Estados Unidos ao debate sobre a abertura das fronteiras. No entanto, os americanos temem a entrada de terroristas no país entre os imigrantes, posição que também gera polêmica e divide opiniões na França. Na opinião do historiador, o Brasil pode ser alvo dos pedidos dos refugiados sírios e o número pode variar conforme o atendimento em outras nações. "Nós temos um bom histórico no acolhimento dos povos árabes", acrescentou o professor.
Segundo Soares, a população síria vive no meio do conflito entre as forças do ditador Bashar al-Assad e o terror do Estado Islâmico que realiza execuções públicas de pessoas que não aceitam a interpretação radical do Alcorão. Ele lembrou que a população síria não conseguiu derrubar o presidente durante o movimento "Primavera Árabe", como na Líbia e Egito. Ao contrário, após críticas de organismos internacionais ao regime Bashar al-Assad, o presidente foi mantido no poder com apoio da Rússia. "O governo sírio não segue a Convenção de Genebra e faz uso de armas químicas. Apesar disso, Bashar al-Assad continua no poder, pois é considerado uma peça importante para conter a expansão do califado. Do outro lado, o Estado Islâmico persegue e elimina cristãos e até muçulmanos que não concordam com a interpretação do Alcorão. Essa combinação entre conflitos políticos e religiosos gera desespero e os sírios fogem do país por causa do medo", explicou o historiador, que é membro do Laboratório de Estudos sobre as Religiões e Religiosidades (Leer) da UEL. Ele ainda comentou que os integrantes do Estado Islâmico destroem construções históricas e campos arqueológicos, considerados como "idolatria", mas antes retiram objetivos valiosos para comercialização no mercado negro destinado à venda para colecionadores com a meta de financiamento das ações do grupo terrorista.
A extrema pobreza também leva milhões de africanos até o continente europeu, por meio de arriscadas travessias pelo Mar Mediterrâneo com o objetivo de chegar ao Sul da Itália. "São fugitivos da miséria, provenientes de países do Norte da Africa de língua francesa ou inglesa, que esperam chegar até a França e Inglaterra", disse. O professor afirmou que a visita do Papa Francisco a ilha de Lampedusa foi importante para que a Europa iniciasse a discussão sobre a crise da migração, principalmente sobre os inúmeros naufrágios e mortes de africanos no oceano. "Nunca foi feito nada pelos imigrantes negros e a tragédia dos refugiados e a visita do papa colocaram o assunto em jornais e na mídia de todo o mundo."


