São Paulo, 26 (AE) - O transporte urbano de ônibus de São Paulo vive uma das suas maiores crises, agravada com a perda de 2,5 milhões de passageiros em três anos, a irregularidade de pagamento da Prefeitura por serviços prestados pelas empresas e a proliferação do serviço de lotação feito por peruas clandestinas. "O transporte coletivo regular corre o risco de acabar", prevê o advogado Antônio Sampaio Amaral Filho, diretor jurídico do Transurb, sindicato das empresas de ônibus.
O diretor financeiro da São Paulo Transporte (SPTrans), Antônio Emiliano Leal da Cunha, é da mesma opinião. "Se providências não forem tomadas, poderá ocorrer em São Paulo o que está acontecendo na Cidade do México, onde existem 32 mil clandestinos; o transporte lá é um caos", advertiu. Mais um passo para que isso aconteça foi dado hje, quando a direção do Transurb suspendeu as negociações, iniciadas há duas semanas, com o Sindicato dos Motoristas e Cobradores para tratar das reivindicações salariais e concessão de benefícios de acordo com a data base da categoria.
"A partir do dia 30 deste mês só vamos pagar o que for determinado por lei, como salários, horas extras e adicional noturno", disse Amaral Filho. "O único benefício que daremos será a cesta básica", acrescentou. A concessão de vale-refeição
seguro de vida e 15 dias extras de aviso prévio foi suspensa. "Não vamos também aceitar a reivindicação de assistência médica-odontológica gratuita, gatilho salarial quando a inflação chegar a 5% nem produtividade de 5%", garantiu. "Não temos recursos financeiros para atender as reivindicações dos trabalhadores e para não ficarmos dizendo não a toda hora, decidimos suspender as negociações", afirmou o representante do Transurb.
Amaral Filho explicou que, em 1998, quando a direção do sindicato patronal negociou as claúsulas da Convenção Coletiva de Trabalho "a Prefeitura devia cerca de R$ 30 milhões, o equivalente a 10 dias de operação das empresas; hoje, a dívida é de R$ 120 milhões, o que corresponde a 40 dias de operação". De acordo com Amaral Filho, "as empresas encontram-se descapitalizadas e impossibilitadas de atender qualquer reivindicação dos motoristas e cobradores". Além da dívida, as empresas enfrentam uma queda do número de passageiros.
Em 1997, as 54 empresas transportavam 6,5 milhões de passageiros por dia. Hoje, apenas 4 milhões. "Absurda maioria dos passageiros foi para os lotações clandestinos", disse o advogado. "As peruas fazem uma concorrência predatória, pois realizam os percursos mais curtos e mais rentáveis e só trabalham nos horários de pico", disse Amaral Filho. "é necessário um combate mais rigoroso a esse tipo de transporte", pediu.
"Os nossos fiscais apreenderam uma média de 60 a 70 peruas por dia", informou o diretor financeiro da SPTrans. "Hoje, cerca de 100 perueiros depredaram um veículo da empresa e agrediram nossos fiscais que faziam uma blitz em Santo Amaro"
se queixou Cunha. Com relação a dívida, o diretor da SPTrans informou que nesta semana haverá mais uma rodada de negociação com os empresários. "Não há dúvida que vamos pagar, mas precisamos negociar primeiro", afirmou.
Já o presidente do Sindicato dos Motoristas e Cobradores
Gregório Poço, reconheceu que as empresas estão enfrentando problemas com a falta de pagamento e a evasão de passageiros. "Mas não fomos nós que provocamos isso", disse. "O prefeito Celso Pitta e as autoridades de segurança é que devem resolver o problema", acrescentou.
No dia 30 ou 3 de maio a categoria deverá fazer nova assembléia para discutir o que irá fazer. "Não pretendemos parar, pois quem sai prejudicada é a população; vamos estudar uma maneira de protestar para mantermos nossos direitos", afirmou.

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