Crise brasileira acabou, diz imprensa dos EUA
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sexta-feira, 23 de abril de 1999
Por Paulo Sotero 
Washington, 24 (AE) - Em meados do mês passado, o presidente do banco de investimentos BBA, Fernão Bracher, preocupava-se com a falta de notícias positivas sobre o Brasil na imprensa internacional. Em Paris, onde acompanhou a ofensiva das autoridades para reconquistar a confiança perdida, durante a reunião anual do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Bracher perguntava: "O que precisamos fazer para ter boas notícias sobre o Brasil no New York Times?". A resposta que ouviu de um amigo - "Ter boas notícias sobre o Brasil no Brasil"- não o convenceu.
Bracher, que foi presidente do Banco Central nos anos 80
terá uma surpresa agradável quando chegar a Washington, amanhã (25), para falar num seminário paralelo à reunião de primavera do Fundo Monetário Internacional (FMI), organizado pelo Instituto de Finanças Internacional. Nas páginas da grande imprensa norteamericana, a crise brasileira já acabou.
"O Brasil vendeu US$ 2 bilhões em bônus globais, mostrando que a combinação de cortes do déficit (fiscal) e reformas pró-mercado restauraram a confiança em sua economia", informou o Wall Street Journal na última sexta-feira, em notícia de primeira página.
No mesmo dia, The New York Times anunciou na manchete de seu caderno econômico que "há muita fortaleza no Brasil", num artigo de quase uma página do novo correspondente do jornal no Rio de Janeiro, Larry Rohter, sobre a surpreendente capacidade de reação de uma economia que, de extremamente nervosa e inconstante no passado, "está ganhando auto-controle".
Hoje, o Times reforçou a imagem da ressurreição econômica do Brasil com mais duas notícias. Numa delas o jornal apresentou a abertura da fábrica da Mercedes em Juiz de Fora (MG), como "mais um sinal de que a comunidade internacional de negócios está confiante na recuperação do Brasil".
Na outra, o megainvestidor George Soros afirmou numa conferência em Nova York que, com a volta do Brasil ao mercado de capitais, "a crise financeira global está agora oficialmente encerrada". Soros acrescentou que o mundo pode agora esperar pela próxima crise, que ninguém sabe exatamente de onde ou como virá.
Uma teoria, baseada na crença de que o que sobe desce, é que ela poderia ser provocada por uma forte correção da bolsa de Nova York, combinada com uma recessão na Europa e a continuação do torpor econômico japonês.
Mas os riscos do futuro não diminuem o impacto da volta por cima que a economia brasileira está dando apenas três meses depois de ter estado à beira do abismo. O economista Jeffrey Sachs classificou a reação brasileira de "impressionante".
O diretor-gerente do FMI, Michel Camdessus, usou o adjetivo "brilhante" para descrevê-la e manifestou-se "feliz com o erro" que os economistas da organização cometeram ao prever uma retração do PIB para este ano duas vezes maior do que os 2% que o Banco Central agora projeta.
A reportagem do Times aponta, logo no início, uma das razões da mudança da percepção sobre o Brasil entre analistas e investidores no exterior. "Depois de um salto inicial dos preços (em seguida à desvalorização do real), que foi sempre uma grande (fonte de) ansiedade neste País assombrado por uma história de inflação de quatro dígitos, os consumidores estão exigindo que os preços fiquem estáveis e forçando as lojas a obedecer."
Para o ex-diretor do escritório da Comissão Econômica das Nações Unidas para América Latina e Caribe (Cepal) em Washington, o economista Isaac Cohen, "o fato de que os brasileiros se cansaram da inflação e estão agindo para mantê-la sob controle é uma mudança que tem enormes implicações positivas num País que se organizou política e economicamente nas últimas décadas para conviver com a hiperinflação".
Cohen, que tem hoje sua própria firma de consultoria internacional e é comentarista da rede CNN em espanhol, apontou como um fator adicional para a reavaliação do Brasil pelos investidores o comedimento que as autoridades brasileiras têm demonstrado diante das boas notícias, advertindo a população que ainda é cedo para cantar vitória e que esta depende ainda do aprofundamento das reformas.
"Estamos muito felizes com os US$ 2 bilhões de bônus vendidos", disse na sexta-feira o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, cuja credibilidade pessoal no mercado e estilo sereno de atuação têm sido cruciais para a recuperação da confiança, junto com a aprovação das medidas fiscais pelo Congresso e a determinação que o executivo mostra para perseverar no caminho do ajuste. "É um sinal muito encorajador para nós, de que estamos no caminho certo."
Para Francisco Gros, diretor no Brasil do banco de investimentos Morgan Stanley Dean Witter, um dos co-líderes da operação da volta do País ao mercado, um ingrediente fundamental da rápida mudança da imagem externa é a nova atitude que o BC apresenta aos investidores.
"Até recentemente, o BC via o mercado como adversário"
disse Gros, que presidiu o Banco Central em dois períodos conturbados, nos governos Sarney e Itamar Franco. "Hoje, o Brasil fala hoje a língua do mercado, trata o mercado como aliado."
Operadores e analistas do mercado ouvidos nos últimos dias disseram que a atitude que Fraga assumiu diante da CPI dos bancos, de tratá-la com naturalidade, como um procedimento normal e benéfico para a transparência dos sistema numa sociedade democrática, ajudou também a por o assunto na perspectiva correta e diminuiu o temor de que ele venha a ter efeitos negativos para a recuperação da economia.
É contra esse pano de fundo, que permite ao Brasil apresentar-se como parte da solução e não mais da crise financeira global, que o presidente do BC e o ministro da Fazenda, Pedro Malan, chegaram hoje à capital norteamericana para participar da reunião do Comitê Interino do FMI.


