Crise atinge os hotéis de compristas
Crise atinge os hotéis de compristas
Valmir Denardin
Ney de SouzaCarlos
Alberto
Tavares,
do Sindicato
dos Hotéis:
O turismo
de
compras
acabouEnquanto os hotéis de luxo de Foz do Iguaçu ganharam dinheiro e se modernizaram em 97, os estabelecimentos destinados a atender sacoleiros viveram seu pior ano, vítimas de uma crise profunda marcada pelo sucateamento e fuga de hóspedes. Uma operação para salvar esse segmento é a principal preocupação de Carlos Alberto Tavares, de 35 anos, presidente do Sindicato dos Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Foz do Iguaçu.
No ramo hoteleiro da cidade há 12 anos, o paulista Tavares comenta, em entrevista concedida à Folha da Amizade, os principais problemas do setor. Ele também aponta saídas para melhorar a ocupação e o faturamento dos hotéis da cidade.
Folha - Qual foi o comportamento do setor hoteleiro de Foz em 97?
Carlos Alberto Tavares - Primeiro, precisamos dividir a hotelaria de Foz, que é bem segmentada. Temos o turismo de lazer, centralizado na estrada que leva às Cataratas, um pouco de turismo de negócios, e turismo de compras, basicamente na Vila Portes e um pouco no centro da cidade. O turismo de lazer vai bem. Tivemos um aumento de 50% no número de hotéis que ofereceram festas de Réveillon e quem não esteve lotado teve ocupação a partir de 80%. Graças ao Réveillon e um bom trabalho de mídia de alguns hotéis, tivemos um bom Carnaval também, principalmente nos hotéis de lazer (de quatro a cinco estrelas). Isso é muito bom porque, até agora, não tínhamos tradição no Carnaval. Nos hotéis do centro se mantém a taxa de ocupação. Já na área de compras, a situação é mais preocupante. O turismo de compras acabou. Em, no máximo, dois anos não haverá mais sentido manter hotéis para atender sacoleiros.
Folha - Qual foi a taxa de ocupação média do setor no ano passado?
Tavares - Nos hotéis de lazer, fechamos 97 com uma taxa em torno de 60% e 70%. É uma ocupação considerável. Deu para os gastos e ainda sobrou dinheiro para reinvestir no hotel. Já no turismo de compras, fechou com ocupação média em torno de 25% a 30%. E o restante dos hotéis (principalmente os do centro da cidade) fecharam com taxa em torno de 40% a 50%.
Folha - Como está a situação dos hotéis destinados a atender sacoleiros?
Tavares - Em relação ao período de 80 a 85, que foi o auge do turismo de compras, caiu 70%. São hotéis que foram criados para esse segmento. Boa parte de seus donos não era do ramo e não estava preparada. Quem se aprimorou, reformou seu hotel, continua trabalhando muito bem. Temos público para todo mundo. O grande pool nos Estados Unidos, hoje, é o hotel duas estrelas. Como os hotéis de Foz destinados a esse público demoraram muito para se modernizar, os donos não têm capital para reformas e nem para melhorar o atendimento.
Folha - Com a ocupação de 97, o segmento destinado aos sacoleiros tem condições de sobreviver?
Tavares - É uma ocupação muito baixa. Eles não estão pagando as contas. Quem tem outros negócios terá que tirar dinheiro dali para pagar as contas do hotel. Quem não tem está endividado. Esses hotéis estão cada dia mais sucateados e sem capital para reinvestimento.
Folha - Qual é a solução para não haver uma quebradeira geral do setor destinado a atender compristas?
Tavares - Temos alguns bons projetos para a cidade. Para os hotéis de classe alta ou média, temos o Corredor do Ecoturismo (programa que envolve Foz do Iguaçu e os Estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Amazonas e Pará, que venderá pacotes em todo o mundo integrando as Cataratas, o Pantanal e a Amazônia). Este projeto deverá deslanchar até o segundo semestre. Para os hotéis de categoria mais baixa temos a proposta do Turismo Econômico (projeto que quer atrair a Foz visitantes de padrão econômico mais baixo, como trabalhadores de indústrias e estudantes). Vamos cadastrar esses hotéis, para classificá-los em três categorias. Com o Plano Real, a classe baixa foi a que mais cresceu no Brasil. Vamos fazer materiais de divulgação desses hotéis, montar pacotes de três, quatro ou cinco noites, com viagem de ônibus, para as pessoas que estão acostumadas a viajar e ficar só em casa de parentes. Tenho muita esperança em 98. A situação está complicada, mas não é um privilégio da hotelaria.
Folha - Será fácil levar essa proposta adiante?
Tavares - Não. É um projeto audacioso. Teremos que juntar até cem hotéis. Sabemos que o interesse individual sempre fala mais alto, mas teremos que chegar a um consenso. A idéia é contratar uma equipe de vendas e mandar os vendedores visitar as grandes empresas, que têm até 500 funcionários saindo de férias todos os meses. Vamos vender para as empresas, para que elas vendam a seus funcionários, em parcelas. Ou as empresas poderão presentear seus funcionários com essas viagens, como forma de incentivo. Também vamos visitar escolas para aproveitar as férias e os feriados prolongados. Já que o comprista não está vindo mais, vamos trazer o estudante, o empregado de fábricas.
Folha - Mas a cidade não tem um excesso de hotéis?
Tavares - Temos excesso de oferta. A cidade tem 230 mil habitantes e em torno de 220 hotéis, com 26.600 leitos. Mas esse remanejamento é natural. Quantas farmácias e postos de gasolina estão fechando em Foz? Com o Plano Real, facilitou-se a abertura de empresas. Só os melhores vão permanecer no mercado. Mas não acho que deve diminuir o número de hotéis. Só que muitos terão que descobrir outros nichos, como atender mensalistas. Hoje, em Londrina e Maringá, hotéis abaixo de duas estrelas estão atendendo estudantes. Precisamos aumentar a oferta de cursos superiores em Foz. Não temos a necessidade de diminuir o número de hotéis, porque eles podem mudar de ramo.
Folha - Quem é o concorrente de Foz hoje?
Tavares - Hoje ficou muito fácil viajar. Um pacote de três dias em Buenos Aires, com viagem de avião e hospedagem em hotel três estrelas, está custando US$ 300. Nosso concorrente hoje é Buenos Aires, o Caribe, o mundo todo... Em março vamos realizar uma palestra sobre qualidade total, para que possamos enfrentar essa concorrência.
Folha - Foz está perdendo a atratividade como destino turístico?
Tavares - Pelo contrário. A tendência é aumentar, com o novo filão do ecoturismo, principalmente a visitação de estrangeiros. Mas precisamos de novas atrações para segurar o turista e aumentar a média de permanência, que hoje é de 1,7 dias. Acho que uma boa opção seriam os parques temáticos e a promoção de grandes festas e feiras.
Folha - Que avaliação o senhor faz das políticas públicas para atrair turistas para Foz?
Tavares - Falta muita coisa, mas tivemos avanços em 97. A Foztur passou a coordenar os principais projetos para desenvolver o setor. Mas, acima de tudo, falta divulgação maciça, nacional e internacional. Não adianta ter uma filha linda trancada dentro de casa. Ela nunca vai casar. Falta consciência da população e da prefeitura para o turismo. Uma cidade turística não pode ser mal iluminada, suja, com menores na rua, com transporte urbano deficiente e onde falta planejamento urbanístico. Em Foz, não há linhas de ônibus que atendam a Itaipu e nem o Marco das Três Fronteiras! O comércio não permanece aberto no final de semana! Além disso, a população tem que desenvolver a consciência de atender bem o turista.





