A idéia clássica de que o bandido ou marginalizado social, qualquer que seja a sua roupagem, é sempre um tipo mal-encarado, de amedrontar à primeira vista, começa a ser sufocada pela criminalidade emergente. O que antes se apontava como exceção aos poucos vai se incorporando ao universo criminal: pessoa aparentemente acima de qualquer suspeita cometendo transgressões das regras de convívio social.
Nos golpes de caneta ou do computador, o tradicional 171 do nosso Código Penal, sempre há um chamado ‘‘colarinho branco’’, bem vestido e bem nutrido, surrupiando o bem alheio. Dois casos recentes e emblemáticos: num dos condomínios fechados mais chiques de São Paulo, uma série de furtos nas mansões deixou os moradores em polvorosa e desconfiados dos serviçais, conforme acusaram de imediato nas primeiras reclamações à Polícia. Em campo, os sherloques descobriram que os ladrões eram filhinhos-de-papai do próprio condomínio. Alguns se apoderavam de objetos de valor para comprar drogas. Entre eles dois eram modelos e um filho de juiz de Direito, que por sinal transportava as coisas furtadas num jipe importado. Outro episódio marcante é o do médico radiologista, do Rio de Janeiro, um serial killer que escolhia suas vítimas entre os colegas discípulos de Hipócrates.
Não se trata, aqui, de atirar pedras sobre categorias profissionais e descendentes biológicos, e sim fazer uma constatação que não pode ser mais camuflada: o crime, hoje, está disseminado entre todas as categorias sociais. A situação merece ser socialmente investigada, não ficando mais restrita ao ritual canônico, interessado apenas em cumprir as formas para estabelecer autorias de crimes e restrições a direitos. Um dos fatos que merece cada vez mais a nossa atenção gira em torno dos ‘‘mauricinhos’’ do condomínio fechado: usuários e comentendo crimes para fazer caixa e obter as drogas pois os traficantes não vendem fiado e tão pouco aceitam cheque pré-datado. Também não procuram cartórios de protesto, preferindo executar as cobranças a tiros. Essa triste verdade é sempre escamoteada pelos defensores das drogas, sempre preocupados em enaltecer o objeto, a substância entorpecente, não a pessoa - o infeliz usuário que cai numa triste situação dessas, fechando assim os olhos para a realidade paralela: uma prevenção eficiente, digna desse nome, ajudaria - e muito - a prevenir muitos casos de violência. Ainda em São Paulo, recentemente, um jovem levou sua turma para invadir a própria casa e matar a mãe (uma psicóloga), na busca de valores a ser transformados em gramas de pó branco e pedras de crack.
Os conceitos, como se vê, andam corroídos pelos ácidos da modernidade. O psiquiatra norte-americano Fredric Wertham convenceu-se de que estudo da violência não pode apoiar-se, simplesmente, nos dados históricos conhecidos até duas décadas atrás. ‘‘Existem fatos inteiramente novos dos quais podemos aprender. A violência não está na história, está no presente. Os fatos de nossos tempos não suportam generalizações fáceis. Rótulos evitam que vejamos as verdade geralmente menos agradáveis.’’
A lista de ‘‘mauricinhos’’ envoltos pelo manto criminal pode ser ampliada ao infinito - passando pelos incendiários do índio pataxó em Brasília e chegando a toda parte, sempre a tornar concretamente real aquele princípio evocado por George Orwell na sua maravilhosa fábula A revolução dos bichos: ‘‘Todos são iguais perante a lei mas alguns são mais iguais que os outros’’. Um menos igual, por exemplo, é simplesmente um ladrão; um mais igual poder ser um cleptomaníaco.
Nesse ignorado laboratório de comportamento humano, as diferenças do tratamento e enfoque geram a impunidade, que por sua vez é mãe do descrédito nas instituições que possuem nas mãos o arsenal legal para defender a sociedade. Como diria Ledo Ivo, na escuridão do mundo sim e não, os contrastes da sociedade, são irmãos.

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