Criminalística aponta que obra ignorava normas técnicas
Quatro trabalhadores morreram soterrados durante escavação em fazenda em Marilândia do Sul
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segunda-feira, 09 de setembro de 2019
Quatro trabalhadores morreram soterrados durante escavação em fazenda em Marilândia do Sul
Vitor Struck - Grupo Folha 
O Instituto de Criminalística de Londrina confirmou que os cinco operários soterrados no final de agosto enquanto abriam uma tubulação em uma propriedade rural no distrito de São José, em Marilândia do Sul (Centro-Norte), trabalhavam em desacordo com as normas técnicas para a realização da obra. Na ocasião, quatro operários morreram soterrados e um precisou ficar um dia internado no HU (Hospital Universitário) com ferimentos leves.

De acordo com o diretor do Instituto de Criminalística de Londrina, Luciano Bucharles, uma série de normas de segurança foi ignorada. Nem mesmo capacetes eram utilizados pelos trabalhadores que tinham entre 17 e 38 anos. “Faltaram taludes, escadas e rampas para a evacuação rápida do local”, exemplificou.
Bucharles lembrou que a precariedade nas condições de trabalho, especialmente em propriedades rurais em todo o País, é uma constante. No entanto, a maioria dos acidentes não é divulgada por não resultar em mortes. “Muito embora fosse uma obra de engenharia, ela não estava sendo considerada assim, não sei se por desconhecimento do proprietário da fazenda ou por negligência mesmo. Isso agora é com o delegado que está com o inquérito”, avaliou.
Segundo o delegado do município, Felipe Ribeiro Rodrigues, o dono da propriedade rural colaborou desde o início com as investigações, no entanto deve ser responsabilizado pelas quatro mortes. “Ele foi colaborativo, disse que não tinha nenhum engenheiro responsável. Homicídio culposo, não tem muito o que discutir, o que vai ser aferido é somente o grau de culpa, mas não tem como ele não ser indiciado. A culpa está muito bem constituída”, explicou Rodrigues.
A expectativa é que o inquérito seja concluído dentro do prazo de 30 dias. Já a pena pelo crime é de um a três anos de prisão para cada morte.
Rodrigues também afirmou que, segundo o proprietário, uma empresa foi contratada para a escavação do duto, o que deve ser melhor elucidado nas próximas oitivas do caso. “Está sendo levantado quem era o responsável técnico por essa empresa, enfim. A empresa era responsável só por escavar, os funcionários que estavam colocando o duto na canaleta eram dele (fazenda), alguns eram formais outros terceirizados”, explicou.
Segundo apurou a reportagem, o proprietário da fazenda em Marilândia do Sul também já foi notificado pelo Ministério do Trabalho. A reportagem não conseguiu contato com o dono da área.
O Crea-PR (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Paraná) também abriu um processo administrativo para a apurar a responsabilidade. Em nota, a entidade explicou que a legislação determina a instalação de escoras (taludes) para escavações a partir de 1,75 metro de profundidade. No entanto, a escavação de Marilândia do Sul já havia ultrapassado os três metros.
“É preciso utilizar os equipamentos de segurança para proteger o trabalhador. Não só quem está dentro da vala, mas também quem está operando do lado de fora. As normas são detalhadas e criteriosas para trazer segurança ao local”, explicou o gerente regional do Crea Apucarana, o engenheiro civil Jeferson Antonio Ubiali.
O Corpo de Bombeiros de Apucarana chegou à fazenda por volta das 17h para atender a um chamado de deslizamento de terras. No local, os bombeiros constataram que Ederson Teles Proença, 36, estava com parte da cabeça livre. Ele respirou por meio de uma mangueira de oxigênio até ser resgatado pouco antes das 19h. Ele foi encaminhado ao HU (Hospital Universitário de Londrina) e recebeu alta no dia seguinte.
Ao todo foram necessárias mais de cinco horas para a conclusão dos trabalhos de remoção dos corpos. Moradores das proximidades e outros funcionários também participaram da ação que demandou diversos cuidados uma vez que novos deslizamentos poderiam ocorrer.
Igor Daniel da Silva, 17, Jonas Benedito Lopes, 31, Josimar Pereira de Souza, 23, e Valdeir Barbosa, 38, foram encontrados sem vida. Os corpos das vítimas foram enterrados no fim de semana.


