Crime político causa paranóia no Piauí
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de setembro de 1998
Wilson Tosta Especial para a AE 
O assassinato do apresentador e candidato a deputado Donizetti Adalto (PPS) há nove dias na capital piauiense, Teresina, aumentou entre políticos locais o medo de que o Estado acabe em situação semelhante à de Alagoas, com envolvimento de policiais com o crime organizado e a política. Para evitá-la, a Polícia Federal, como determinara a Justiça antes do caso, enviará de outro Estado uma equipe, possivelmente a mesma que combateu a Gangue Fardada alagoana, para dissolver três quadrilhas já identificadas (uma na Polícia Militar, duas na Polícia Civil), envolvidas em extorsões e homicídios. O governo do Piauí acha que há exagero e exploração política da violência.
O vereador Djalma Filho, candidato a deputado estadual pelo PPS, é o acusado de mandar matar Donizette Adalto. O procurador-geral de Justiça do Piauí, Antônio Ivan e Silva, pediu na sexta-feira a prisão preventiva do vereador, companheiro de partido de Adalto. Djalma Filho foi acusado pelo superintendente da Polícia Federal (PF), Robert Magalhães, e pelo delegado-geral da Polícia Civil, Francisco Carlos do Bonfim Filho, de ser o mandante do assassinato do jornalista e apresentador de tevê, que era candidato a deputado federal também pelo PPS.
Embora não tenha sido apurada participação de policiais no caso, alguns políticos aumentaram a cautela e as críticas. Pedi seguranças ao ministro da Justiça, afirma o candidato a governador pela coligação Avança, Piauí (PFL-PPB-PV-PT do B-PSL-PAN-PRP), senador Hugo Napoleão. Já somos o que Alagoas está deixando de ser, afirma o deputado estadual Wellington Dias (PT), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia.
Depois do assassinato e da centralização das investigações do caso na Polícia Federal, a violência virou um dos temas centrais da campanha no Piauí, onde três prefeitos foram mortos a tiros desde 1996, e é debatida diariamente nas emissoras de televisão. Venho denunciando a existência de gangues, afirmava na quinta-feira em um programa o deputado Olavo Rebelo (PSB). Uma facção está tentando jogar a responsabilidade sobre o governo do Estado, protestava o deputado Carlos Augusto (PSDB). A população também dá tom político ao ocorrido: no domingo passado, quando Donizetti foi sepultado, os cartazes de candidatos no caminho do cortejo fúnebre foram destruídos, em manifestação de revolta.
Morte, crime organizado e política, com a provável participação de policiais, se misturam na história recente do Piauí. Na cidade de Altos, o prefeito Cesar Leal foi morto em abril de 1996, num homicídio com sinais de envolvimento de outro setor com grande atuação no Estado, em especial junto a prefeituras do interior: o da agiotagem. Em Aroazes, o prefeito eleito Manoel Portela foi eliminado em dezembro do mesmo ano, antes de ser diplomado. Em agosto de 1997, ocorreu o assassinato de Raimundo Marques, prefeito de Luzilândia. Aqui na Assembléia, fala-se que é mais fácil contratar um pistoleiro que ganhar uma eleição para prefeito, diz Dias.
A lista de ameaçados de morte inclui, além de Dias, o superintendente local da PF, Robert Magalhães, o presidente da OAB-Piauí, Nelson Nery Costa, o arcebispo católico local, D. Miguel Fenelon, o procurador-geral de Justiça do Estado, Antônio de Pádua Linhares, e o presidente do Sindicato dos Policiais Civis, Jacinto Teles. Todos receberam telefonemas ou cartas ameaçadoras. O motivo: depois de muitos crimes violentos, entre eles uma chacina de quatro homens que foram carbonizados, participaram, em 30 de abril, de uma reunião em que elaboraram documento levantando a possibilidade de o crime estar organizado e infiltrado nas polícias do Estado.
De três anos para cá, houve muitas mortes misteriosas no Piauí, com corpos carbonizados, sem identificação e indícios de queima de arquivo, conta Nery Costa. Isso é resultado da inércia das autoridades, deste e de governos anteriores. Mas, segundo ele, o caso de Donizetti Adalto não parece ter ligação direta com os anteriores. Ele construiu o seu nome sobre denúncias e fazia campanha (para deputado federal) com o slogan Pau na Máfia, mas não dizia que Máfia era essa, diz o presidente local da OAB.
No documento elaborado no encontro, foi pedida a colaboração da Polícia Federal nas investigações de crimes atribuídos a policiais. O pedido, de certa forma, acabou atendido pelo juiz Rui Costa Gonçalves, da 3ª Vara Federal, que, num despacho de 17 de agosto em processo sobre ameaças sofridas por Magalhães, determinou que a PF assuma as investigações de 23 crimes supostamente cometidos por policiais, como torturas, lesões corporais, ameaças, prisões ilegais, abusos de autoridade, invasões de domicílio e tentativa de homicídio.


