Crime pode constranger FHC no Canadá
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segunda-feira, 21 de abril de 1997
Agência Estado, de Ottawa 
Ed Ferreira/Arquivo FolhaOnde nós estamosO ministro Milton Seligman (esq.) conversa com parentes do índio assassinado. FHC quer que ele acompanhe pessoalmente o inquérito sobre o crimeO assassinato de um índio pataxó por jovens de classe média, em Brasília, poderá provocar constrangimentos ao presidente Fernando Henrique Cardoso em sua visita ao Canadá. Entidades de defesa dos direitos humanos estudavam a possibilidade de fazer algum tipo de manifestação ou, pelo menos, fazer chegar ao presidente uma carta de repúdio ao que ocorreu em Brasília, em que um índio foi incinerado pelos jovens.
Ontem pela manhã, antes de embarcar, Fernando Henrique pediu ao ministro interino da Justiça, Milton Seligman, que acompanhe pessoalmente o inquérito que apura a morte do índio Galdino Jesus dos Santos. Onde nós estamos? disse, irritado, FHC, segundo relato de Seligman.
A morte do índio pataxó é mais um fato negativo que Fernando Henrique levou em sua bagagem para o Canadá. Além deste caso, a repercussão da violência praticada por policiais militares em Diadema (SP) e Cidade de Deus (RJ) está causando indignação no exterior. Infelizmente isso afeta a imagem do Brasil lá fora, reconhece uma fonte do governo.
A preocupação dos canadenses com os índios e a população nativa é muito grande. Os índios são recebidos em audiência diretamente pelo primeiro-ministro, Jean Chrétien. E há leis específicas para a proteção dos esquimós. A começar da proibição de chamá-los de esquimós, considerado pejorativo. No Canadá o esquimó é o povo inuit. Desde 1971 o Canadá é considerado pelo governo como uma nação multicultural. O tóten esquimó é um símbolo do Canadá tão importante quanto a folha do bordo (maple), mostrada na parte central da bandeira.
No Canadá, o Brasil não está mais constando dos arquivos das entidades de direitos humanos. O Centro Nacional dos Direitos Humanos e dos Direitos Democráticos, a maior organização não-governamental canadense no setor, está presente em 13 países: El Salvador, México, Guatemala, Haiti, Panamá, Birmânia, Tailândia, Paquistão, Quênia, Ruanda, Eritréia, Togo e Tanzânia. Seus programas pregam o respeito aos direitos humanos e democráticos.
Sepultamento Os índios da aldeia pataxó Hã-Hã-Hãe, do município baiano de Pau Brasil, a 550 quilômetros da capital baiana, estão preparando uma grande manifestação durante o sepultamento, hoje, de Galdino Jesus dos Santos. O prefeito de Pau Brasil, Durval Santana (PMDB) decretou luto de três dias e o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) classificou o caso como uma manifestação neonazista.
Perplexos com o episódio, caciques pataxós tentavam encontrar explicações para o crime. O cacique Patiburi disse ontem em Salvador que a situação está fora de controle, a minoria está sendo massacrada sem piedade. Ele pediu que a Justiça Federal julgue os criminosos.


