Roma, 26 (AE) - O crime organizado recicla US$ 300 milhões por dia provenientes de tráficos ilegais. Só a renda obtida com o tráfico de drogas é equivalente de US$ 400 bilhoes, ou seja, 8% da renda total do comércio internacional.
Estas são algumas das cifras divulgadas nesta sexta-feira (26) durante o encontro internacional organizado pelas Nações Unidas e pelo Senado italiano para tratar do crime organizado internacional.
A organização do encontro divulgou dados atualizados de 1997 sobre o tráfico de drogas. Com relação à produção de cocaína por excemplo, são 800 toneladas provenientes de um cultivo de cerca de 179 mil hectares principalmente no Peru, Colômbia e Bolívia.
As informações distribuídas pela Organização das Nações Unidas (ONU) registram uma diminuição da produção no Peru e na Bolívia e um aumento na produção colombiana.
O evento, que começou hoje em Roma e terminará amanhã, tem o objetivo de recolher as contribuições dos estados membros para a elaboração de uma convenção da ONU contra o crime organizado que deverá ser assinada no ano que vem.
A intenção é estimular a cooperação entre os vários países e buscar a harmonização em termos de legislações, além de promover uma legislação interna mais eficaz.
Os participantes do encontro sublinham a importância de se criar instrumentos efetivos que permitam uma estratégia de combate à criminalidade que ultrapassa as fronteiras de cada nação.
Segundo o italiano Pino Arlacchi, vice-secretário-geral das Nações Unidas e diretor do programa da ONU para o controle das drogas, "o crime organizado ameaça o mundo de modo cada vez mais eficaz".
Imitando as atividades legais, esses grupos chegaram a formar verdadeiras multinacionais que traficam clandestinos, mulheres e crianças para prostituição e fazem contrabando de armas. "Eles corrompem até a polícia, juízes, políticos e homens de negócios, extorquem dinheiro e matam", denuncia Arlachi.
Sanções eficazes como confisco de bens provenientes das ativiades ilícitas devem ser introduzidas nas legislações de cada país, na opinião do vice-secretário-geral das Nações Unidas.
"Enfrentar a questão das extradições e a proteção dos colaboradores de justiça, além de obter a transparência do sistema financeiro internacional com a quebra do sigilo bancário para todas as investigações criminais também são nossos objetivos", explicou Arlacchi em seu discurso na abertura do encontro que conta com a participação de ministros da Justiça de 15 países.
Os trabalhos foram abertos pelo presidente do Senado italiano, Nicola Mancino, na presença do presidente da república, Oscar Luigi Scalfaro.
"Diante da globalização do crime que está assumindo características de holding, usando os sistemas financeiros mais sofisticados, é necessária uma resposta em termos globais", afirmou Mancino em seu discurso. "Caso contrário, o risco é uma derrota da legalidade com consequências incalculáveis para o futuro do mundo."
A reunião de Roma está tratando mais especificamente de três modalidades do crime organizado internacional: migração ilegal, tráfico de armas e tráfico de mulheres e crianças.
O Brasil, representado pelo ministro da Justiça Renan Calheiros e pela secretária nacional de Justiça Sandra Vale, foi convidado especialmente para falar sobre o tráfico de armas.
Mas segundo a doutora Sandra Vale, se hoje está sendo discutida a questão da cooperação multilateral para combater o crime organziado, isto se deve também ao Brasil.
"No congresso quinquenal sobre o crime, no Cairo, junto com Estados Unidos e Argentina, apresentamos um projeto de resolução que depois teve o apoio de Itália, Alemanha e outros, uma posição minoritária e que é essa que hoje discutimos", conta.
"Sentimos orgulho de ter lançado idéias e de dizer que ninguém convive com o crime organizado, de falar da importância da cooperação multilateral e de modernizar os mecanismos de comunicação entre os governos."
No discurso que pronunciará amanhã no encontro das Nações Unidas sobre o crime organziado transnacional em Roma, o ministro Renan Calheiros ressaltará a importância da colaboração com a Itália. "Entre 1995 e 1998 foram entregues 22 criminosos foragidos à justiça italiana" diz o texto.
Encontrando os jornalistas, o ministro declarou que há investigações em curso para aprofundar as informações sobre 80 pessoas que atuam em Fortaleza, Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. Trata-se principalmente de italianos envolvidos com exploração de jogos, prostituição e outras atividades ilícitas.
"Desde a Declaração de Nápoles do Plano de Ação Contra o Crime Organziado de 1994, muito se fez no Brasil", informou o ministro.
"Ultimamente empossamos o COAF e temos dado passos no sentido de construir um caminho de cooperaçao internacional", afirmou.
O tema do discurso de Calheiros no encontro de Roma foi escolhido porque o Brasil tem cumprido papel importante com relação à proibição do tráfico ilegal de armas.
"Desde 1995, o Brasil quer um controle de armas de fogo", informa Sandra Vale. "A lei que criou o Senarme nos permitiu sair para o primeiro mundo e falar que há necesidade de um controle. Há muitas armas até sofisticadas que entram no Brasil, facilmente pelo Paraguai, e vão para os morros. Queremos que haja uma espécie de impressão digital na arma e na munição do fabricante para você fazer rastreamento. Aí, nenhum país pode dizer que não sabia."
A proposta de um controle do tráfico de armas, inicialmente apresentada por Brasil, Japão e Canadá foi apoiada pelos Estados Unidos, que passou a coordenar diretamente da Casa Branca. "Na comissão de Viena em 98, tivemos a adesão de 58 países. Nunca, nos quatro anos que estou lá, vi um apoio tão maciço", recordou Sandra.
O Brasil sente-se vítima do tráfico internacional de armas, segundo o ministro Renan Calheiros. Para tornar mais eficaz e efetivo o controle das armas que entram no país, ele diz que espera um acordo com os Estados Unidos. "Algo parecido com o que eles fizeram com o México, isto é, um controle do registro de vendas." Esse é um dos temas que ele tratará na próxima reunião que terá com a ministra da Justiça norte-americana em Lima.
No âmbito regional, a proposta do ministro é que os chefes de Estado do Mercosul, mais Bolívia e Chile, assinem a declaração sobre o combate à fabricaçao e ao tráfico de armas de fogo.
Comentando sua passagem pela Espanha, onde foi tratar da extradição dos acusados pela tragédia do Bateau Mouche, o ministro comentou o caso da prostituição de brasileiras, exploradas pela máfia russa.
"Em 97/98, em média, 300 brasileiras foram expulsas da Espanha, 98% delas acusadas de prostituição", informou o ministro. "Elas são atraídas com proposta de emprego digno e salário de US$ 3 mil a US$ 4 mil e quando chegam no exterior a coisa não se realiza e resta a droga e a prostituição."
Segundo o ministro, a prostituição é uma das fontes de renda dos grupos criminosos, uma emergência que também depende da colaboração internacional.

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