Crime organizado afeta países em desenvolvimento
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quarta-feira, 04 de agosto de 1999
Por Gumisai Mutume, da IPS (assinatura obrigatória) 
Cidade do México (AE-IPS) - A visita à Colômbia, Equador e Curaçao de Barry McCaffrey, o principal funcionário norte-americano na luta contra as drogas, colocou em evidência a ameaça que são o narcotráfico e o crime organizado em alguns governos.
Na Colômbia, durante a primeira escala de sua viagem, o general McCaffrey, chefe do Escritório de Política Nacional contra as Drogas da Casa Branca, disse que sua visita se deve à preocupação do governo do presidente Bill Clinton com a "séria e crescente emergência na região". O governo do presidente colombiano Andrés Pastrana está combatendo grupos de guerrilheiros esquerdistas aos que acusa de estar profundamente envolvidos no tráfico de cocaína e heroína. McCaffrey qualificou de "narcoguerrilheiras" as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), o grupo guerrilheiro mais antigo da América Latina, que conta com cerca de 15 mil integrantes. Foi informado que as FARC recebem quantias de dinheiro dos narcotraficantes, em troca da permissão para estes operarem no território que controlam. A contribuição norte-americana para a campanha do governo colombiano contra as drogas chegará a US$ 289 milhões este ano, mas Bogotá queria US$ 500 milhões. Essa assistência, que inclui operações conjuntas mediante o emprego de satélites, radares e vigilância aérea, não conseguiu abater a produção de narcóticos na Colômbia, que é o primeiro produtor mundial de cocaína. Ao contrário, estima-se que o país duplicou sua produção desde 1996. Em compensação, "houve uma redução de 60% no volume de coca cultivada ilegalmente no Peru em 1998, em comparação aos níveis de 1991", apontou Pino Arlacchi, diretor executivo do Programa das Nações Unidas para o Controle de Drogas e a Prevenção do Crime. "Na Bolívia, a queda foi superior a 20%. A situação é mais complexa na Colômbia, onde o governo deve enfrentar, ao mesmo tempo, um grave problema interno de insurgência, e as duas maiores organizações guerrilheiras controlam a maior parte da área de cultivo de drogas ilícitas", adicionou.
O organismo das Nações Unidas estimou que a produção mundial de cocaína caiu em 1998 para menos de 800 toneladas, e portanto ficou 10% inferior à registrada no começo da década, revertendo-se a tendência de alta dos anos 70 e 80. A Conferência das Nações Unidas sobre Espaço Exterior, que aconteceu há algumas semanas em Viena, decidiu estabelecer "uma rede internacional de vigilância de cultivo de narcóticos para o ano 2001", que utilizará detetores localizados em satélites na estratosfera e outras tecnologias para descobrir plantações. No começo do mês de julho, McCaffrey declarou que seu país poderia empregar US$ 1 bilhão para ajudar alguns governos latino-americanos e caribenhos em sua luta contra as drogas. Mas entre os debates sobre o vínculo entre o narcotráfico e os insurgentes, é amplamente aceito que os grupos internacionais de crime organizado se fortaleceram ao aproveitar as oportunidades que lhes dão a globalização econômica e as novas tecnologias de comunicação. "É cada vez mais difícil controlar algumas destas grandes organizações transnacionais", declarou Gabriel Araujo, um criminologista da Universidade Autônoma Metropolitana da Cidade do México. Araujo opinou que as dificuldades também se vinculam ao fato de que em muitos países em desenvolvimento "a polícia não foi bem educada, é corrupta, mal paga e trabalha em condições difíceis".
O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) indicou que os traficantes de drogas e o crime organizado estão desenvolvendo alianças estratégicas internacionais. "A globalização abre muitas oportunidades para o crime, que está se tornando global de forma acelerada, superando a cooperação internacional destinada a combatê-lo", advertiu o Informe de Desenvolvimento Humano 1999 do PNUD, divulgado este mês. "Os países em desenvolvimento não estão preparados para enfrentar semelhantes consequências da globalização. Trata-se essencialmente de um problema econômico", apontou Araujo.
O Escritório Federal de investigações dos Estados Unidos assinalou que sete dos 12 principais cartéis de droga do mundo se encontram no México, um país cuja força policial tem sido denunciada com frequência por corrupção. Os outros quatro se encontram na Colômbia e há um na República Dominicana. No informe do PNUD estimou-se que as principais organizações criminais do mundo obtêm ganhos anuais que superam o produto interno bruto da maioria das nações. Esse grupo de organizações inclui as Seis Tríades na China, os cartéis de Cali e Medellín na Colômbia, a Cosa Nostra nos Estados Unidos, a Máfia na Itália
a Yakuza no Japão e os cartéis de Juárez, Tijuana e el Golfo, no México. Organizações criminais na Nigéria, Rússia e na áfrica do Sul também estão chegando rapidamente ao nível de desenvolvimento desse grupo de vanguarda. Calcula-se que em 1995 o tráfico de drogas em todo o mundo alcançou um valor de US$ 400 bilhões, uma cifra equivalente a 8% do comércio mundial, superior ao valor do comércio de ferro e aço, ao de motores e veículos, e quase o mesmo valor do comércio de gás e petróleo.
O PNUD indicou que a industrialização, a automatização dos processos produtivos e os traslados forçados provocados pela guerra criaram em muitos países uma subclasse social madura para a exploração das multinacionais do crime. Por exemplo, os desempregados dos bairros pobres da áfrica do Sul são recrutados com facilidade por organizações criminosas que converteram o país em um importante centro de embarque do tráfico de drogas. Estima-se que na áfrica do Sul operam centenas destas organizações. Segundo a polícia da áfrica do Sul, a existência dessas organizações causou um aumento da criminalidade e debilitou "os controles sociais mediante o suborno, a corrupção
a fraude e o recrutamento de cidadãos".
As atividades criminosas internacionais incluem o comércio de pornografia infantil, contrabando, espionagem econômica, falsificação, lavagem de dinheiro, roubo de propriedade intelectual, suborno, terrorismo e tráfico de drogas. Os mecanismos internacionais vigentes são inadequados para enfrentar o crescente refinamento das atividades transnacionais, e o mundo necessita de novos instrumentos, disse Araujo. Um dos grandes problemas se vincula à jurisdição. Se são vendidos valores falsos norte-americanos por telefone de Amsterdã a negociantes na áfrica do Sul, e um cidadão inglês controla a operação em Mônaco, que polícia deve atuar no caso, e sob que jurisdição deve intervir um fiscal? O PNUD indicou além disso que as suspeitas recíprocas de corrupção que existem entre as forças de ordem dos países em desenvolvimento afetaram sua capacidade de cooperar. Um informe sobre as 59 maiores economias mundiais do Fórum Econômico Mundial, com sede em Davos, na Suíça
assinalou que a Colômbia, a áfrica do Sul, a Rússia e o México eram os países estudados com maior incidência do crime organizado. No informe foi assinalado que isto fazia estes países pouco atraentes para os negócios e reduzia sua competitividade internacional.


