Crime expõe o comércio ilegal de armas no País
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sexta-feira, 05 de novembro de 1999
Por Marcelo Godoy 
São Paulo, 06 (AE) - O estudante de medicina Mateus da Costa Meira pagou caro pela submetralhadora M-11 Cobray com a qual matou três pessoas e feriu outras cinco na noite de quarta-feira, no MorumbiShopping. A arma custou-lhe R$ 5 mil e foi vendida por um mecânico. Um armamento semelhante pode ser encontrada no mercado negro por preços que variam de R$ 2 mil a R$ 3 mil, dependendo do modelo.
Para o ministro da Justiça, José Carlos Dias, a ação do atirador que matou três pessoas na sala de cinema do MorumbiShopping serve como mais um argumento a favor do projeto de lei do governo federal que proíbe a venda de armas no Brasil. Mas a submetralhadora M-11 não é vendida em lojas de armas - seu comércio e uso são proibidos no País. Chega ao Brasil contrabandeada pelo ar, por meio de pequenos aviões, ou por terra, carros e caminhões.
A submetralhadora preferida pelos ladrões é a Intratec. De fabricação norte-americana, a Intratec é compacta como a M-11
mas tem um poder de fogo maior. "Cerca de 70% das armas que nós apreendemos neste ano são de calibres de uso proibido", afirma o delegado Ruy Ferraz Fontes, titular da Delegacia de Roubo a Bancos. Traficantes - O preço pago pelo estudante pela submetralhadora é semelhante ao cobrado pelos traficantes por uma arma muito mais potente, o fuzil norte-americano Colt AR-15, o preferido dos assaltantes de bancos e carros-fortes e dos ladrões de carga. O fuzil pode ser encontrado por R$ 5 mil. O preço pode ser mais alto, dependendo do modelo. Além do AR-15, outros fuzis muito apreciados pelos criminosos são o Rugger e o Mini-Rugger. A polícia, quando prende um criminoso com uma arma dessas, dificilmente descobre o fornecedor do bandido - casos como o do estudante Meira, que delatou quem lhe vendeu a arma, o mecânico Marcos Paulo Ribeiro Santos, de 25 anos, são raros. "É difícil determinar a origem dessas armas e quem são os contrabandistas, pois os assaltantes presos não revelam os nomes", afirmou o delegado Fontes.
As pistolas de calibre de uso proibido (9 milímetros, 40
45) podem ser encontradas por R$ 1 mil. Os preços das armas foram apurados pelos policiais da Delegacia de Roubo a Bancos durante investigações que resultaram na prisão de ladrões. Empréstimo - De acordo com o titular da 2.ª Delegacia de Crimes Contra o Patrimônio, delegado Edson Santi, por causa dos preços dessas armas, muitas são emprestadas pelos seus donos para que outras quadrilhas façam assaltos. Quem as usa paga um aluguel, que pode ser parte do que foi obtido com o roubo. Geralmente, o proprietário é um traficante de entorpecentes, como Santos, acusado de vender a arma e drogas a Meira. A maioria dessas armas tem como origem Paraguai e Bolívia.
Fuzis e submetralhadoras também são usados em resgates de presos. Em uma dessas ações, em Ferraz de Vasconcelos, Grande São Paulo, os bandidos utilizaram três fuzis AR-15, duas submetralhadoras HK e um lança-granadas. "O grande problema são nossas fronteiras extensas, que é por onde esse tipo de armamento entra no País", diz o delegado Santi. A guarda das fronteiras é atribuição da Polícia Federal, subordinada ao próprio ministro da Justiça.
O relator do projeto enviado ao Congresso pelo governo sobre a proibição do comércio de armas, deputado Alberto Fraga (PMDB-DF), deu parecer contrário à proposta. Fraga explicou-se dizendo que o problema não está na venda legal de armamentos, mas no contrabando e no comércio de armas antigas entre particulares.


