Crime e castigo
Depois que as coisas acontecem, perguntamos a nós mesmos o que fazer. Isso deveria fazer parte do cotidiano, para a sociedade aprender a evitar, definir a melhor maneira de punir e como seria a tão falada reintegração social. Nesse sentido, surgiu a fracassada prisão, que como bem definiu Michel Foucault, é uma detestável solução, mas nada temos para colocar no seu lugar. Deveria ser uma espécie de enfermaria do espírito. Nunca foi.
O choque causado pelo caso da moça que arquitetou o assassinato brutal dos próprios pais, em São Paulo, traz tudo isso à tona. Suzane estudava Direito, primeiro ano na PUC, e se achava acima das suspeitas, muito inteligente, todos idiotas. Pegou as luvas cirúrgicas da mãe, que era médica, para não ficarem impressões digitais. O namorado e seu irmão, os matadores, trajavam meia-calça para não cair nenhum pelo que pudesse servir de base para exame de DNA, o código genético. No domingo seguinte, a moça comemorou os 19 anos à beira da piscina. O pai dela planejava mudar-se para a Alemanha, preocupado com a violência em São Paulo. Não sabia que o perigo morava ao lado. Explosão emocional é uma coisa. Arquitetar crimes é outra.
Embora arrepiante, não é o primeiro caso do tipo. Em 1994, por exemplo, na cidade de Santos, a também estudante de Direito Andréia Gomes Pereira do Amaral contratou um adolescente para matar os pais. As reações são divergentes. Na Faculdade onde Suzane estudava, a reação foi do formalismo burocrático: como ela ainda não foi julgada, não poderia ser incriminada. Não se trata, aqui, de precipitar juízos. No caso da estudante em Santos, as presas do mesmo lugar onde ela estava escreveram num dos braços de Andréia: ''assassina de pai e mãe''. Com isso, quero observar que a população carcerária não tolera certos crimes, ao contrário da sociedade em liberdade. Assim, por exemplo, molestar crianças, estuprar e justiceiros pagos vivem vida de martírio da prisão. Outros pesos, outras medidas.
No caso de Suzane, ela diz que os pais foram mortos porque se opunham ao namoro com um rapaz que não estuda e nem trabalha. Resta saber se outros pais concordariam. A psicóloga Rosely Saião mostra que o ponto final dessa história é criminal mas a origem não: ''A finalidade da educação dada aos filhos é o acesso à autonomia, ou seja, à independência para viver por conta própria. Mas, de algum modo, o relacionamento que muitos pais têm com os filhos tem apontado para o caminho oposto: para a dependência, para a falta de liberdade dos filhos para abrir seu caminho, para gozar a sua vida sem a aprovação, a autorização ou consentimento deles''. Ela observa que Suzane ''parece não ter encontrado uma maneira de bancar sua escolha, de viver à revelia da expectativa dos pais''. Crime e castigo, viver e aprender, vigiar e punir, descobrir e pensar, prevenir e evitar, conviver ou proibir. Impasses da vida, o script que pode explodir em atos de violência.





