Crime criou poder paralelo no Acre, diz ouvidor
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sexta-feira, 24 de setembro de 1999
Por Edmílson Ferreira, especial para a AE 
Rio Branco, 25 (AE) - O tráfico de drogas, os assassinatos de autoria desconhecida e a corrupção no serviço público criaram um poder paralelo no Acre, segundo define o ouvidor agrário nacional, Gercino Filho, ex-desembargador que iniciou em março de 1997 as investigações que resultaram na cassação e na prisão do ex-deputado Hildebrando Paschoal e seus 28 supostos cúmplices no narcotráfico e nos grupos de extermínio. "Esse poder paralelo teve seu fortalecimento facilitado pela omissão das autoridades, desde membros do Ministério Público, governo e magistrados", afirma Gercino. "Isso, agora, está com os dias contados".
O governo do Acre está fazendo um relatório sobre a situação de 12 empresas da administração indireta. Os responsáveis pela auditoria não antecipam o que já foi levantado
mas há suspeita de fraude e corrupção. A pior situação é a do Banco do Estado (Banacre), que só em operações duvidosas e fraudulentas acumulou, ao longo da última década, um rombo de R$ 144 milhões. Para cobrir essa dívida, o governo teve de emprestar dinheiro do Banco Central, comprometendo o orçamento por 30 anos.
O Banacre começou a agonizar na metade da década de 80, mas levou seu tiro de misericórdia no governo de Orleir Cameli (de 1994 a 1998), quando foram retirados R$ 25 milhões do Fundo Previdenciário - dinheiro que evitava que o Banacre recorresse ao mercado para fazer caixa -, supostamente para a construção de 2 mil casas populares para servidores públicos. As casas nunca foram entregues. O conjunto habitacional iniciado por Orleir é hoje objeto de investigação no Ministério Público e da Procuradoria-Geral do Estado. Cassação - Acusado de beneficiar-se com o cargo para obter financiamentos de mais de R$ 400 mil do Banacre, o conselheiro do Tribunal de Contas do estado (TCE), Francisco Díogenes, poderá perder o cargo. O presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga a falência do banco, Edvaldo Magalhães (PC do B), vai pedir, no relatório final, a cassação do mandato de Diógenes. "A dívida já foi negociada", defende-se o conselheiro.
O Sindicato dos Trabalhadores nas Empresas da Administração Indireta (Sindecaf) estima que, apenas em duas delas, a corrupção tenha arrancado do Estado cerca de US$ 500 mil nos últimos dez anos. Juntas, as empresas acumulam dívidas que podem chegar a R$ 200 milhões com o Imposto de Renda e com a Previdência Social. Dos dirigentes sob suspeita de corrupção nesse período, apenas o ex-presidente da Empresa de Processamento de Dados do Acre (Acredata), Emilson Brasil, foi preso.
Brasil esteve três meses na cadeia por supostamente ter desviado R$ 45 mil da Acredata para a conta de sua mulher, Solange, no fim de dezembro de 1998, faltando dois para acabar seu mandato. O superintendente da Polícia Federal do Acre, Glorivan Bernardes, afirmou na sexta-feira que o Comando de Operações Táticas (COT) estão investigando outros dez policiais civis e militares suspeitos de tráfico de drogas e outros crimes. "Estamos trabalhando; não se desarticulam essas organizações clandestinas de uma hora para outra", disse recentemente o governador Jorge Viana (PT). Devassa - Em outro ponto, a corregedoria de Justiça promoveu uma devassa na Vara de Execuções Penais durante dez dias. O relatório confirma as irregularidades denunciadas pelo juiz Marcos Thadeu, que anulou a pena de liberdade domiciliar de 26 presos, incluindo a de Alexandre Alves da Silva, o Nim, irmão de José Aleksandro da Silva (PFL-AC), que assumiu a vaga de Hildebrando na Câmara sexta-feira. Nim é tido como traficante e membro dos grupos de extermínio.
Apesar de ver juízes e desembargadores citados como omissos e coniventes com a criminalidade, o Tribunal de Justiça diz que não há nada contra nenhum magistrado.


