Crianças viram catadores de papel
A cena passa até despercebida aos olhos da maioria. No Calçadão de Londrina, terça-feira à noite, um grupo de crianças caingangues arrasta um carrinho carregado com papel. O que era uma atividade exercida por brancos pobres se tornou alternativa de renda para os índios.
Nos depósitos próximos ao Centro Cultural Kaingang, na zona sul, que recebem o material recolhido de casas e das ruas, os proprietários dizem que é comum índios pedirem para trabalhar como catadores de papel. Eu costumava fornecer carrinhos para os índios adultos, mas eles acabavam bebendo demais e chegaram até a vender as rodinhas para comprar pinga, afirmou um dono de depósito, que não quis se identificar.
A mulher de um outro dono de depósito, Maria Aparecida Conceição Persinoto, revelou que fornece o carrinho para alguns índios. Ontem, pelo menos três deles estavam circulando com carrinhos do depósito. Eles aproveitam para vender artesanato, o palmito que eles trazem da aldeia e até flor, informou. Ela garantiu que não fornece carrinhos para crianças, mas explicou que os índios normalmente saem com toda a família e acabam colocando as crianças para trabalhar.
O administrador da Fundação Nacional do Índio (Funai) em Londrina, José Gonçalves dos Santos, admitiu desconhecer que crianças caingangues estavam trabalhando como catadoras de papel. Nessa época, por causa do Dia do Índio, muitos deles vêm para a cidade com toda a família, pois os caingangues são um povo bastante coletivo, justificou.
Santos disse que iria acionar o departamento jurídico da Funai apenas um advogado para toda a Região Sul , a prefeitura e, em último caso, a Procuradoria de Justiça, em Londrina.
O cacique da reserva Apucaraninha, local de origem dos índios, Moisés Lourenço, admitiu que sabia do problema. Questionado sobre por que os índios estariam saindo da aldeia, ele argumentou que não há terra na aldeia para todo mundo plantar.
O presidente do Conselho Tutelar de Londrina, Júlio Botelho, que também desconhecia o problema, disse que iria acionar os fiscais de rua para abordar os índios e encaminhá-los até o Conselho e identificar o dono do depósito para que não forneça o carrinho para crianças. Botelho garantiu que iria notificar ainda o Ministério do Trabalho e a própria Funai. (Luciano Augusto)





