Campinas, SP, 29 (AE) - Cansadas de esperar pelo acordo entre os adultos - que há anos discutem uma lei definitiva de proteção à mata atlântica - cerca de 250 crianças brasilienses levam ao Congresso Nacional, amanhã (30), um livro com mais de 150 mil desenhos e frases, onde elas e colegas de todo o Brasil manifestam a vontade de herdar um pedacinho da floresta mais rica em biodiversidade do País. Os desenhos e frases foram coletados em 13 Estados nas exposições "Mini Floresta Sorriso Herbal", organizadas pela Fundação SOS Mata Atlântica nos shopping centers e no Mãos à Obra, um projeto educacional realizado junto a mais de 300 escolas de ensino fundamental pelas 170 organizações não-governamentais (ONGs), ligadas à Rede Mata Atlântica.
"A mata atlântica vai ser o nosso futuro, daqui a alguns anos", explica Ísis de Lima Soares, 12 anos, aluna da Escola Cooperativa do Butantã, na capital paulista, escolhida para representar as crianças de outros Estados, em Brasília. "Temos que conhecer o que é a mata atlântica e fazer alguma coisa: não arrancar folhas, não incentivar os desmatamentos e estar junto com as ONGs como a SOS". A intenção dos ambientalistas, com a manifestação pacífica, é vencer a resistência dos ruralistas, na audiência pública de amanhã, que marca o início de novas discussões sobre a legislação da mata atlântica.
Os ruralistas alegam que o projeto de lei atualmente em discussão - apesar de amplamente discutido e negociado, com parecer favorável do relator Luciano Pizzatto (PFL/PR) - engessa as atividades agropecuárias. Os ambientalistas contestam, explicando que as restrições de corte referem-se apenas aos 7,3% remanescentes da floresta original. "O que sobrou corresponde praticamente às áreas de Preservação Permanente (APPs), ou seja, estamos falando de preservar topos de morro, mananciais, beiras de rio, encostas íngremes, florestas absolutamente vitais e localizadas em áreas de risco, porque até os 20% das reservas legais, obrigatórios, já vem sendo derrubados", observa Mário Mantovani, da SOS Mata Atlântica.
Segundo levantamentos feitos com base em imagens de satélite, a mata atlântica perdeu, só entre os anos de 1990 e 1995, um total de 500.317 hectares. Em todo o Brasil restam 94 mil quilômetros quadrados da floresta original, que tinha 1,2 milhão de quilômetros quadrados. A mata original estendia-se ao longo da costa atlântica brasileira, desde o Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul, entrando para o interior aproximadamente 100 quilômetros de costa norte e 500 quilômetros no sul, onde chegam à Argentina e Paraguai.
A aprovação do projeto de Lei da Mata Atlântica é uma medida urgente para proteção e preservação dos remanescentes, argumentam ambientalista. A questão central da polêmica é a chamada área de domínio. A nova legislação considera domínio da mata atlântica as diversas formações florestais a ela associadas
a saber: floresta ombrófila densa, floresta ombrófila mista, floresta ombrífila aberta, floresta estacional, semidecidual, floresta estacional decidual, manguezais, restingas e campos, brejos interioranos e encraves florestais do Nordeste. Os opositores da nova lei querem que o domínio fique restrito à floresta ombrófila densa, liberando para corte, sobretudo, as restingas e manguezais da zona costeira, altamente valorizadas pela especulação imobiliária.

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