Crianças trocam escola por tráfico de drogas no RJ
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 28 de abril de 1997
Agência Estado 
RIO - Muitas crianças da Baixada Fluminense estão trocando a escola pelo tráfico de drogas. A conclusão faz parte de um estudo do grupo Ação e Cidadania do Rio e de outros sete municípios do Estado, coordenado pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase). Essas crianças estariam sendo cooptadas por traficantes e receberiam um salário semanal de R$ 150,00.
O problema é detectado notadamente em áreas de pobreza absoluta nas cidades de Nova Iguaçu e Duque de Caxias. Isso não é uma opção pelo tráfico e sim por um emprego, declarou o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, principal referência do Ação e Cidadania.
Novecentas crianças sem escola foram encontradas num universo de três mil famílias pesquisadas. A maior parte delas, todas na faixa dos 7 aos 14 anos, está nessa situação em decorrência da falta de vagas nas escolas da rede pública. Essa influência do tráfico na evasão escolar restringe-se a áreas específicas e não é mensurável, mas é um dado real, observou Maurício Andrade, um dos coordenadores da pesquisa.
Na verdade, o nosso trabalho é uma amostra que será encaminhada às prefeituras e à análise acadêmica. O Ação e Cidadania já acertou com a pró-reitoria de Extensão e Relacionamento Comunitário da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) o prosseguimento dos estudos.
Durante 30 dias, cerca de 100 pessoas de vários comitês do Ação e Cidadania percorreram bairros populosos e favelas das oito cidades para fazer o levantamento. A ausência de documentos das crianças, o desinteresse dos pais e o pouco número de escolas também contribuem para o esvaziamento.
As 900 crianças estão cadastradas e suas fichas, com nome completo, idade, endereço e informações sobre o responsável, serão entregues às secretarias regionais de Educação. Também integram a pesquisa as cidades de Queimados, São João de Meriti, Belford Roxo, Japeri e Magé. Para enfrentar isso, é preciso um trabalho que envolva a coletividade, que aborte essa relação da criança com o tráfico desde o início, comentou Betinho.


