Crianças obesas têm doenças de adultos
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segunda-feira, 26 de dezembro de 2005
Adriana Dias Lopes<br>Agência Estado 
São Paulo- Neste Natal, o estudante Fábio Costalonga, de 17 anos, não comeu panetone. Muito menos rabanada. Todo fim de ano é essa luta. O garoto descobriu que tinha colesterol alto aos 6 anos. Na época, pesava 60 quilos, o dobro do normal. ''Ele era capaz de comer uma caixa inteira de bombons'', lembra Liliam, a mãe do menino. E, há cinco anos, ele descobriu que sofria de diabete e desde então toma insulina todos os dias. Sua alimentação tem de ser reguladíssima. ''Eu me controlo sempre, faço muitos sacrifícios. Adoro doce, pão e massas'', conta ele. ''Hoje, ele pode comer a metade de carboidratos do que comia antes'', complementa Liliam.
Costalonga faz parte de um perfil cada vez mais comum em pesquisas de saúde: o de crianças e adolescentes com doenças de risco para o coração. Um estudo recém-divulgado da ONG Pró-Criança Cardíaca, no Rio de Janeiro, com 600 crianças e adolescentes com idade de 6 a 18 anos de todas as classes socioeconômicas, revelou um dos dados mais alarmantes já vistos. Um deles, o de que 41,6% deles tinham colesterol total alto. Outros: 11,16% com triglicérides, 10,16% com LDL (o colesterol ruim) e 5% com glicose acima dos limites tolerados pela medicina. Mais: 2% sofriam de síndrome metabólica, uma espécie de desordem orgânica, quando a pessoa tem cinco fatores de risco ao mesmo tempo.
''O que me impressiona é que essas doenças são típicas de adulto'', conclui a cardiologista Rosa Célia Barbosa, coordenadora do trabalho. Doenças de adulto, com hábitos de adulto também. A cardiologista observou que a maioria deles passava mais de duas horas por dia na frente da televisão ou do computador e não praticava nem o mínimo de tempo de exercícios físicos diários recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o de meia hora. Essa meia hora poderia estar incluída até mesmo uma simples caminhadas pelo quarteirão.
''É muito raro que a combinação vida sedentária e má alimentação não prejudique o coração'', explica o cardiologista Marcus Bolívar Malachias, coordenador do Comitê do Selo Funcor, da Sociedade Brasileira de Cardiologia e professor da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais. ''Essa combinação na criança ou adolescente tem efeito de bomba-relógio.''
Entre os maiores problemas, o colesterol. O ruim (LDL) - quando a proporção da proteína responsável por transportar gordura às células é maior que a própria gordura no sangue - com o tempo deteriora as artérias, acumulando-se nas paredes dos vasos. As consequências são doenças de origem circulatória, como o entupimento das artérias, derrame e enfarte. ''É natural que elas apareçam com o passar do tempo, quando envelhecemos. Mas uma criança com a doença significa que está se expondo muito antes a todos os fatores de risco e muito provavelmente vai enfartar bem jovem'', diz Malachias. ''O mesmo vale para glicose e triglicérides altos, que irritam os vasos com o tempo.''


