Crianças no canal contaminado
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 02 de abril de 1999
James Alberti 
Ignorância e resistência são as palavras que resumem a postura dos habitantes das regiões com maior risco de incidência da cólera em Paranaguá. Na Vila Guarani, onde foi dectado o primeiro caso, os moradores das margens do Canal Anhaia relutam em acreditar que os peixes, mariscos e ostras se tornaram uma ameaça de morte.
Vivendo a cerca de 20 metros da casa da menina Flávia Estafanim dos Santos, 9 anos, que teria contraído cólera ao tomar banho no Anhaia, o pescador Gerson Alves Gonçalves, 23 anos, e um grupo de oito adultos observavam filhos e netos brincando nas águas do Canal, sem qualquer tipo de preocupação. Às vezes, um deles gritava para uma criança sair da água. Não era atendido, mas permanecia imóvel. A criança continuava na água. A gente não sabe como se contamina, justificou Gonçalves.
A situação se agrava mais ainda porque todos sobrevivem da pesca na baía de Paranaguá, na qual desemboca o canal, e da extração do marisco bacucu, sobre o qual pesa a suspeita de ser o maior transmissor da doença. A família de Gonçalves, assim como todas na região, tem se alimentado de peixes e passado necessidade por não conseguir comercializar o marisco. O pescador ganhava cerca de R$ 50,00 por mês vendendo o bacucu e há 15 dias tem apenas pescado para alimentar a família.
O secretário da Saúde do Estado afirma ter negociado com o governo Federal recursos para entregar cestas básicas aos moradores. Segundo Raggio, não há prazo para que os alimentos cheguem às residências, embora ele admita a urgência. Temos ainda que negociar a quantidade de cestas a serem entregues, disse.


