Crianças do SOS vão às ruas tentar atrair colegas
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segunda-feira, 20 de março de 2000
Por Luciana Garbin 
São Paulo, 21 (AE) - O SOS Criança tem nova estratégia para retirar meninos e meninas da rua. Batizado de Entre Amigos, ele utiliza garotos atendidos pelo serviço para convencer os que vivem em praças e sob viadutos a seguir para a entidade. A primeira experiência, que ocorreu hoje entre as 10 e as 16 horas na Praça da Sé, atendeu 59 crianças e adolescentes e encaminhou 24.
"Nada melhor para convencer um menino nessa situação a sair da rua do que um companheiro que já passou por isso", afirma o presidente do SOS, Paulo Vítor Sapienza. "Além disso, é um jeito de aumentar a auto-estima de quem está participando."
Pelo trabalho, cada um dos 20 jovens e crianças do projeto receberão mensalmente R$ 100,00. A idéia é dobrar o número de participantes à medida que mais meninos sigam para o SOS e aceitem "mudar de vida", o que significa principalmente deixar de usar drogas e aceitar a possibilidade de voltar ao lar.
Fazer pão - O garoto R.L.S., conhecido como Topete, tem 12 anos e é um dos participantes do Entre Amigos. Foi para a rua aos 5 anos e vive atualmente num albergue em Santa Cecília. Ele diz que entrou para o projeto porque é sua "última oportunidade" e, hoje tentava convencer o amigo da mesma idade E.F.S., a ir para o SOS. "Se você for, vai aprender a fazer pão e a sua mãe nem vai precisar mais ir à padaria", argumentava. Reticente, o colega pensou muito antes de entrar na perua da entidade. Depois, disse que iria para lá almoçar, mas voltaria à Praça da Sé no fim da tarde.
H.T.M., de 12 anos, foi outra criança abordada hoje por uma ex-companheira de rua, de 16. Tinha acabado de chegar do Anhangabaú, onde dorme, com um saco cheio de cola nas mãos. "Joga a cola fora, ela não leva a nada, vamos para o SOS e você pode tomar um banho", dizia a garota a L.A.D. Ainda sob ação da droga, ela seguiu para a entidade com outras meninas também drogadas, uma delas grávida.
Apenas observando, a participante do projeto P.B.S., de 15 anos, comentou: "Quando eu estava na rua também passei por isso, mas não é vida boa cheirar cola." Ela saiu de casa aos 12 anos, porque era maltratada pela madrasta e diz que a importância de trabalhar no Entre Amigos está nos resultados. "Os meninos não gostam quando a polícia leva para o SOS, porque têm de ir à força dentro da viatura e quem vê acha que estão indo para a Febem", afirma. "Com a gente, é diferente."
Os próximos locais onde o ônibus do projeto, com o consultório médico-dentário móvel do SOS e atividades como capoeira, deve estar são as Estações da Luz e Júlio Prestes. O serviço ainda não dispõe das datas, pois, no fim da tarde hoje, o veículo teve de ser mandado para a oficina.
Entidades ligadas a crianças em situação de risco vêem com restrições o novo projeto. "A idéia de levar atividades para tirar os meninos da rua é boa, mas qual será a permanência e a universalidade desse programa e o que será feito com as famílias em seus lugares de origem?", pergunta o coordenador do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua, João de Deus do Nascimento. "Nossa dúvida é se ele vai ajudar a resolver o problema ou só frustrar mais os garotos."
Para o promotor da Infância e Juventude Clilton Guimarães dos Santos, é estranho que o governo estadual tenha tido quatro anos para fazer um projeto desses e só se decida por ele num ano eleitoral. "Utilizar mão-de-obra abaixo de 14 anos é ilegal, sem contar que me parece difícil ensinar solidariedade mediante remuneração."
O padre Júlio Lancellotti, da Pastoral do Menor, tem a mesma preocupação. "Uma atividade como essa não deveria ser paga e, ainda que o princípio pedagógico esteja correto, é importante que os garotos que fazem o convencimento tenham acompanhamento psicológico e supervisão de educadores."


