Curitiba - Internet, MP3, minigames não estão no vocabulário das crianças e adolescentes que vivem nos acampamentos e assentamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Não só pela dificuldade de acesso a essas tecnologias, mas pelas perspectivas de vida e visão de mundo serem outras. Desde cedo, eles aprendem a valorizar a terra e a história de luta do movimento pela reforma agrária.
''É a maior universidade do mundo'', orgulha-se Olavo Rubens Pereira, de 13 anos, ao falar do poder de articulação e mobilização do MST. ''Não existe nenhum outro movimento que consiga reunir tantas crianças, durante três dias, com essa organização'', complementou. Ele está entre os cerca de mil participantes do 6º Encontro Estadual de Sem Terrinha, em Quatro Barras, na Região Metropolitana de Curitiba.
Com uma oratória de fazer inveja a muita gente grande, Olavo diz que não trocaria o campo pela cidade e acredita que tem uma vida melhor do que as crianças e adolescentes dos grandes centros urbanos. ''Nossa alimentação é mais forte e saudável e acho que nossa educação também é melhor'', apontou. O menino mora no Assentamento Chapadão, em Laranjal (170 km a oeste de Guarapuava).
O discurso maduro para um adolescente de 13 anos, talvez, seja resultado da rotina de poucas brincadeiras e muito trabalho. Olavo conta que acorda de madrugada para ajudar na ordenha e na alimentação dos animais que a família cria, vai para escola, onde cursa a 7 série, e depois do almoço volta a trabalhar. Mesmo assim, não se queixa: ''Nossa vida no campo é muito boa''.
Sobre a qualidade do ensino que tem, hoje, na escola do assentamento, a única reclamação é que não é voltado à vocação agrícola dos assentados. E, apesar da pouca idade, o adolescente já traçou planos para seu futuro. ''Quero me formar técnico em agroecologia.''
Ana Paula Ferreira também demonstra uma maturidade incomum para uma criança de 11 anos. Seu maior orgulho é ser apresentadora do Programa Sem Terrinha, na Rádio Camponesa, em Quedas do Iguaçu - atividade que exerce há dois anos. Ela conta que, além da parte musical, a programação inclui a declamação de poemas revolucionários e leitura das cartas que recebe dos ouvintes.
O acampamento onde Ana Paula vive com a família está sendo transformado no Assentamento Celso Furtado (área da Fazenda Araupel), em Quedas do Iguaçu. Para ela, ter um espaço definitivo para viver e produzir é uma das conquistas obtidas por meio do movimento e, por isso, quer continuar esse trabalho, participando de novas ocupações. ''Você sabe que está lutando por você e pela sua sobrevivência'', disse ela em relação às bandeiras do MST.
Apesar de não querer deixar o campo, Ana Paula se revelou dividida entre a luta pela terra e o sonho de ser cantora. ''Se não der para ser cantora, continuo na luta, indo junto com o MST'', afirmou.

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