Crianças discutem ocupações com governo
Dimitri do Valle
De Curitiba
Filhos de trabalhadores rurais sem-terra ocuparam o lugar dos pais para discutir a reforma agrária com representantes do Governo do Estado. Um grupo de 30 crianças se reuniu ontem à tarde com secretários de Estado na sede da Emater, em Curitiba, para apresentar uma pauta de reivindicações. Os pedidos incluíam a criação de escolas, desapropriação de fazendas e liberação de recursos para os assentamentos. A reunião fez parte da programação do 2º Encontro Estadual de Crianças e Adolescentes de Acampamentos e Assentamentos do Estado do Paraná.
O clima da reunião não foi diferente das negociações envolvendo as lideranças do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o governo. Discussões acaloradas marcaram o debate entre as crianças e as autoridades. Leandro da Silva, 12 anos, acampado da Fazenda Slaviero, em Rio Bonito do Iguaçu, era um dos mais exaltados. Questionou a demora em transferir as famílias que estão em áreas invadidas para os assentamentos já regularizados.
Por que eles não levam o pessoal para outra área, perguntou Leandro, quando o superintendente do Incra no Estado, José Carlos de Araújo Vieira, pedia às crianças que convencessem os pais a desocupar as fazendas consideradas produtivas. Da mesma forma que vocês estão aqui pedindo para o tio, vocês têm que dizer para os pais de vocês saírem logo dessas áreas produtivas, disse Vieira.
O atendimento da pauta apresentada pelas crianças do MST, segundo o secretário Pretextato Taborda (Casa Civil), está condicionada à liberação das áreas atestadas pelo Incra como produtivas. Vieira aproveitou a reunião para criticar as ocupações de duas fazendas durante o final de semana no noroeste. Hoje é um dia triste para mim, pois estas duas áreas eram produtivas, disse o superintende às crianças. O professor Nivaldo de Lima, que acompanhou o grupo de crianças na reunião, desaprovou o discurso do superintendente. Ele bateu duro contra as crianças e fez demagogia, reclamou.
A experiência de debater a questão fundiária com autoridades do Estado foi algo novo para a estudante Iraci Cassiana dos Santos, 13 anos. Acho que o governo vai fazer alguma coisa. A menina é do assentamento São Joaquim, no município de Teixeira Soares. Iraci apresentou pedido para melhorar as condições do transporte escolar para as crianças do assentamento. A adolescente tem que acordar às sete da manhã para ir à escola no período da tarde. Caminha seis quilômetros até o ônibus escolar e só chega em casa por volta das 20h30. A superintendente pedagógica da Secretaria de Educação, Zélia Marochi, respondeu que o governo tem atendido os assentamentos dentro da emergência do momento.





