de Foz do Iguaçu

Ney de SouzaTrágica liçãoO resultado do contato com o mundo do crime: ‘‘Na boca da favela, tem cano (arma) de todo tipo, tio’’, dizem os menoresCrianças com idade entre sete e 12 anos, armadas com revólveres e pistolas, vendem drogas nas entradas das principais favelas de Foz Iguaçu. Muitos atuam como ‘‘aviõezinhos’’ - função de intermediário entre o usuário e o traficante na compra da droga - ou ‘‘papagaios’’ - garotos que avisam quando a polícia se aproxima dos pontos de tráfico.
Há muito tempo, eles abandonaram carrinhos e pipas para empunhar revólveres e vender cocaína e crack. Todos os garotos encontrados pela Folha nas entradas das três principais favelas da cidade (Monsenhor Guilherme, Marinha e Guarda Mirim) dizem que começaram trabalhando como ‘‘aviõezinhos’’ ou ‘‘papagaios’’.
‘‘Os magnatas param na boca da favela e a gente desce o morro para pegar a nóia (cocaína)’’, afirma o menino J.B.S., de dez anos, responsável por um ponto de tráfico que funciona a menos de 100 metros da sede da Marinha Brasileira em Foz do Iguaçu.
Geralmente, quem paga os ‘‘aviõezinhos’’ são os ‘‘boqueiros’’. Os meninos recebem até R$ 30,00 por noite, ‘‘salário’’ bem superior ao dos ‘‘flanelinhas’’ (lavadores de carros nas ruas). Porém, no final do dia, eles sempre voltam para os seus becos ou barracos sem nenhum centavo. O menino A.C.S., de oito anos, conta que ‘‘tudo vai para o crack’’.’’ Só faço isso para sustentar o vício’’, diz.
As armas usadas pelos meninos são emprestadas pelos ‘‘boqueiros’’ (traficantes) que as compram em Ciudad del Este, no Paraguai. Diariamente, segundo os próprios meninos, carregamentos de armas e munição chegam às favelas por barcos que cruzam a fronteira pelo rio Paraná.
O calibre das armas varia. ‘‘Na boca da favela, tem cano (arma) de todo tipo, tio’’, revela o adolescente J.P.V., de 14 anos. A história dele não é diferente da dos demais garotos. Para eles, fazer a intermediação entre usuário de drogas e traficante é tão comum quanto brincar de pega-pega. ‘‘Todo menino aqui tem um cano. Com sete anos, o piá (garoto) já vai para a rua correr atrás do prejuizo’’, revela J.P.V.
A droga também chega de barco. A distância entre as duas margens do Rio Paraná, entre Foz e Ciudad del Este, é de apenas 500 metros. O percurso pode ser feito de barco sem grandes problemas. Duas das três maiores favelas de Foz - Monsenhor Guilherme e Marinha - ficam na margem do rio.
A Polícia Civil tem inúmeros casos de morte registrados nas favelas por causa de dívidas de usuários com traficantes. Em maio, o menor M.M., de 14 anos, matou o filho do vereador de Foz do Iguaçu Emerson Wagner (PDT), na favela Monsenhor Guilherme, por causa de uma dívida de R$ 30,00. Emerson Wagner Júnior, 30 anos, recebeu um tiro na nuca e o corpo foi jogado no Rio Paraná.

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