Crianças armadas mergulham no mundo do tráfico
PUBLICAÇÃO
sábado, 31 de maio de 1997
Antônio França, 
de Foz do Iguaçu
Ney de SouzaTrágica liçãoO resultado do contato com o mundo do crime: Na boca da favela, tem cano (arma) de todo tipo, tio, dizem os menoresCrianças com idade entre sete e 12 anos, armadas com revólveres e pistolas, vendem drogas nas entradas das principais favelas de Foz Iguaçu. Muitos atuam como aviõezinhos - função de intermediário entre o usuário e o traficante na compra da droga - ou papagaios - garotos que avisam quando a polícia se aproxima dos pontos de tráfico.
Há muito tempo, eles abandonaram carrinhos e pipas para empunhar revólveres e vender cocaína e crack. Todos os garotos encontrados pela Folha nas entradas das três principais favelas da cidade (Monsenhor Guilherme, Marinha e Guarda Mirim) dizem que começaram trabalhando como aviõezinhos ou papagaios.
Os magnatas param na boca da favela e a gente desce o morro para pegar a nóia (cocaína), afirma o menino J.B.S., de dez anos, responsável por um ponto de tráfico que funciona a menos de 100 metros da sede da Marinha Brasileira em Foz do Iguaçu.
Geralmente, quem paga os aviõezinhos são os boqueiros. Os meninos recebem até R$ 30,00 por noite, salário bem superior ao dos flanelinhas (lavadores de carros nas ruas). Porém, no final do dia, eles sempre voltam para os seus becos ou barracos sem nenhum centavo. O menino A.C.S., de oito anos, conta que tudo vai para o crack. Só faço isso para sustentar o vício, diz.
As armas usadas pelos meninos são emprestadas pelos boqueiros (traficantes) que as compram em Ciudad del Este, no Paraguai. Diariamente, segundo os próprios meninos, carregamentos de armas e munição chegam às favelas por barcos que cruzam a fronteira pelo rio Paraná.
O calibre das armas varia. Na boca da favela, tem cano (arma) de todo tipo, tio, revela o adolescente J.P.V., de 14 anos. A história dele não é diferente da dos demais garotos. Para eles, fazer a intermediação entre usuário de drogas e traficante é tão comum quanto brincar de pega-pega. Todo menino aqui tem um cano. Com sete anos, o piá (garoto) já vai para a rua correr atrás do prejuizo, revela J.P.V.
A droga também chega de barco. A distância entre as duas margens do Rio Paraná, entre Foz e Ciudad del Este, é de apenas 500 metros. O percurso pode ser feito de barco sem grandes problemas. Duas das três maiores favelas de Foz - Monsenhor Guilherme e Marinha - ficam na margem do rio.
A Polícia Civil tem inúmeros casos de morte registrados nas favelas por causa de dívidas de usuários com traficantes. Em maio, o menor M.M., de 14 anos, matou o filho do vereador de Foz do Iguaçu Emerson Wagner (PDT), na favela Monsenhor Guilherme, por causa de uma dívida de R$ 30,00. Emerson Wagner Júnior, 30 anos, recebeu um tiro na nuca e o corpo foi jogado no Rio Paraná.


