Criança escapa de ser triturada com lixo em SP
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quinta-feira, 03 de julho de 1997
Agência Estado São Paulo 
Eram 8h05 da manhã de ontem quando o coletor de lixo Lúcio dos Santos Lima, de 25 anos, escutou um choro de criança que vinha dos sacos de lixo que pegou numa calçada e jogou no caminhão. Ouvi um gemido e me assustei, conta. Pulei no caminhão, peguei o saco e quando vi tinha um bebê lá dentro. Se o choro do bebê não tivesse sido ouvido, ele teria morrido prensado com os outros sacos de lixo.
O recém-nascido, preso ao cordão umbilical, estava num saco preto misturado com placenta e o lixo comum, que Lima está tão acostumado a ver. Com cuidado, o coletor de lixo pegou a criança, acalmou-a em seus braços até que parasse de chorar. Me senti como um herói.
Depois, Lima e os outros colegas pediram ajuda a Marcos Antônio de Pádua, de 40 anos, que pertence à Guarda Civil Metropolitana e faz trabalho extra como segurança de um condomínio próximo à esquina das Ruas Rodrigo Cláudio e Júpiter, na Aclimação, onde o bebê foi encontrado. Ele chamou outros dois seguranças que tinham carro para levar o bebê para o hospital, disse Lima.
Aguinaldo Pacheco, de 31 anos, que também é guarda da GCM e trabalha como segurança no mesmo condomínio, estava chegando para trocar de plantão com o colega Alexandre De Luca, de 30 anos, que trabalhou à noite, quando recebeu o chamado pelo rádio do colega Pádua. Lima entregou o bebê a Pacheco. A camisa de De Luca virou cobertor. No meu colo ele ficou tão protegido que até deu um sorriso, disse Pacheco, orgulhoso. Eu estava tão preocupado que me sentia o pai, contou De Luca.
Enquanto o colega guiava o carro, Pacheco prestou os primeiros socorros ao bebê. Ele estava com dificuldade de respirar e eu fui limpando seu nariz e boca para tirar o excesso de sangue e secreção, lembra.
A criança, que tem 2,9 quilos, foi levada ao Hospital do Servidor Público. Segundo Jorge Ismael Huberman, médico responsável pelo Setor de Neonatologia, ele corria risco de vida. O bebê respirava bem e tinha atividade cardíaca normal, mas estava com temperatura muito baixa.
De acordo com Huberman, a limpeza que Pacheco fez enquanto estavam indo para o hospital ajudou muito. Quando eles nascem precisam que suas vias respiratórias sejam liberadas, explicou. O médico disse que a criança ficará 72 horas em observação no berçário. Depois que tiver alta médica, teremos de saber qual será o caminho dele.
No 6º Distrito Policial, onde a ocorrência foi registrada, a delegada de plantão, Iraci Medeiros Teixeira, informou que algumas pistas foram encontradas na sacola cheia de lixo que estava junto com o bebê. Estamos investigando um cheque de R$ 104,21 que estava todo picado para tentar obter informações sobre a mãe, disse. Roupas com sangue e outros objetos também serão investigados. A delegada explicou que, se localizada, a mulher será indiciada por abandono de incapaz.
Em dois anos trabalhando como coletor de lixo, Lima disse que foi um dos momentos mais marcantes de sua vida. Eu nunca tinha passado por nada parecido, conta. Apesar de chocado, ele prefere não julgar a mãe. A gente não sabe que tipo de problema as pessoas têm para fazer isso, disse. Pode ser alguém com problema mental.
Lima acorda todos os dias às 4h20, deixa sua mulher e a filha, de um ano e oito meses, em casa no bairro do Rio Bonito, zona sul da cidade, para chegar às 7 horas na garagem de onde saem os caminhões de lixo, na Avenida do Estado, centro. O trabalho só termina por volta de 15 horas. Quando eu peguei o bebê e ele parou de chorar, senti como se estivesse com meu filho.
Durante o depoimento na delegacia, Lima e os dois guardas se emocionaram ao contar a história. De Luca, um pouco mais que os outros. Chorava sempre que precisava falar. Ele tem dois filhos e sua mulher está grávida. A sensação de ver um ser humano que acabou de nascer dentro de um saco de lixo é inacreditável, disse. Um bebê totalmente frágil, indefeso, desprotegido. Pacheco, que também é casado, contou que ele e a mulher também querem ter um filho. O bebê, que foi encontrado no lixo e quase morreu, não tem mãe. Mas, em seu primeiro dia de vida, ganhou três pais.


