Montredon, França (AE-AP) A confortável casa de pedra com persianas vermelhas, localizada no topo de uma dura montanha é um improvável posto de comando de um combate de dimensões mundiais. O criador de ovelhas de aparência frágil e de bigodes que vive nela parece ainda menos um chefe guerreiro.
Mas Jose Bove surgiu como um líder de uma batalha contra a ordem do comércio mundial, que ele e sua radical Confederação de Fazendeiros vêem como um risco ao meio ambiente, à saúde pública e a um modo de vida.
No centro da batalha de Bove está a Organização Mundial do Comércio (02), que se reuniu em Seattle, entre os dias 30 de novembro e 3 de dezembro para estabelecer uma agenda para uma nova rodada de negociações cujo objetivo é liberalizar o comércio.
O Plateau de Larzac, onde a centenária casa de Bove está situada e a cidade abaixo, Millau, estão impregnadas de tradição. Nos tempos antigos, os artigos de cerâmica feitos aqui eram exportados por todo o Império Romano. Hoje, a rochosa região no sul da França é reconhecida por seu queijo roquefort.
Bove, 46 anos, conquistou atenção internacional neste verão, quando passava três semanas atrás das grades por desmontar parcialmente uma loja do McDonalds em construção em Millau.
A ação foi um protesto contra as sanções norte-americanas sobre uma série de produtos de luxo, entre eles o roquefort, mas significou também uma reclamação maior: a "McDominação" do mundo.
Após chegar aos EUA, Bove foi interrogado pela polícia de Washington depois de tentar desenrolar uma faixa de protesto em frente ao Capitólio.
As sanções, que continuam sendo aplicadas, pretendem punir a União Européia por sua recusa em importar carne bovina norte-americana tratada com hormônios.
"O roquefort foi feito refém da carne cheia de hormônios", disse Bove, explicando suas ações. "Não pode haver nada mais simbólico do que isso. São dois tipos opostos de agricultura".
Bove não é contrário ao comércio mundial, mas quer injetar uma dose de ética, a fim de que a lei de mercado e a mentalidade do lucros a qualquer preço não vençam. "Hoje tudo vira comércio", diz ele. "O mercado quer coordenar tudo".
Bove não está sozinho em sua luta. Os US$ 17 mil para pagar sua fiança vieram de simpatizantes em todo o mundo, incluindo dos EUA. Um bar no Brooklyn leva agora seu nome e um termo que ele cunhou, "mal bouffe" ou "comida ruim", é largamente usado na França.
Bove já havia conquistado uma importante vitória contra o Exército Francês, forçando-o, nos anos 70, a abandonar seus planos e expandir uma base militar nas proximidade após uma campanha de protesto liderada por ele.
Desde então, Bove tornou-se um ativo líder, arriscando-se a pegar cinco anos na cadeia por atacar o McDonalds quando o julgamento ocorrer no próximo ano.
Para Bove, esta não é apenas uma guerra alimentar: Agricultura e cultura andam de mãos dadas.
O McDonalds, Bove argumenta, é um sintoma da galopante padronização da rede de restaurantes, e o símbolo do "dominante modelo cultural" americano.
"Há algum respeito pelo domínio alimentar, o direito de todas as pessoas de escolher como querem comer?", pergunta ele. Ele teme que a resposta em breve seja "não".

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