Londrina – O barulho das sirenes das viaturas, sinal de movimentação policial por causa das constantes rebeliões, já faz parte do passado para os moradores da Rua Santa Marta, no Jardim Espanha e imediações, na zona leste de Londrina. Desde a implantação do Centro de Reintegração Social de Londrina (Creslon) no local onde funcionava a carceragem do 2º Distrito Policial, há um ano e meio, o som que "altera" a rotina do bairro é o do vai e vem de ônibus que transportam os cerca de 200 apenados do regime semiaberto todos os dias para o trabalho.
O emprego é requisito obrigatório para o preso permanecer no semiaberto. "Se não quiser trabalhar, o preso retorna para a penitenciária. Depois de um tempo pensando na vida, ele geralmente muda de ideia", conta o diretor do Creslon, Reginaldo Peixoto. Ele explica que a adaptação ao semiaberto, em muitos casos, é turbulenta. "O semiaberto é o melhor e o pior sistema, pois a maior liberdade é sinônimo de tentação. Se não houver preparo psicológico, o detento foge e, quando é recapturado, volta para a cadeia", conta.
O Creslon registra uma média de 15 fugas por mês. Segundo Peixoto, o índice está abaixo da média nacional. Em 2013, cerca de 700 presos passaram pela unidade. Por outro lado, Peixoto orgulha-se do fato de que todos os 145 presos beneficiados com liberdade provisória no fim do ano retornaram. "Os conselhos deles serão muito importantes para os novatos que chegarem", enfatiza.
O principal campo de emprego para os detentos é a construção civil. O empresário Mário Luiz Costa, da curitibana Prestes Construtora, absorve boa parte da demanda por meio do convênio com o governo estadual em obras em Londrina e região metropolitana. "É bom para todo mundo, porque a empresa recebe incentivo fiscal e os presos têm uma chance de recomeçar a vida com qualificação", defende.
Sobre o constante questionamento de que a contratação de presos fecharia vagas para operários, Costa rebateu expondo a dificuldade em encontrar mão de obra. "Tem empresa trazendo trabalhadores de outras regiões do País porque não encontra aqui. Então essa acusação não é verdadeira." O Creslon mantém convênio com 11 empresas, que fazem o repasse de um salário mínimo para o Estado. Do total, o preso fica com aproximadamente R$ 500. A outra parte da renda é encaminhada para a família.
Elenter Alves da Silva Júnior, de 37 anos, é apontado como exemplo de que a ressocialização é possível. Há 14 anos no sistema penitenciário, ele se qualificou em vários cursos e no começo deste ano obteve a maior recompensa pela extensa rotina de estudos: aprovação em Enfermagem na Universidade Estadual de Londrina (UEL). "Agora é vida nova. Fui muito bem recebido por funcionários da UEL. Espero a mesma recepção entre os colegas de sala. Mas se não houver, saberei lidar com isso", pontua. Enquanto aguarda o início das aulas, ele trabalha com o colega Valdemir Noquelli, de 52 anos, nas obras de ampliação de celas. Até o fim do ano, mais 80 vagas serão criadas no Creslon.(C.F.)

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