São Paulo, 25 (AE) - Um crescimento do Brasil e do mundo nos próximos 12 meses é o melhor remédio para a crise comercial que está atrapalhando o Mercosul e ameaça dividir o bloco nas negociações da Rodada do Milênio, que se iniciam em novembro. A recuperação da economia brasileira impulsionaria as exportações argentinas. Isso daria tempo para que o novo governo argentino, a ser eleito em outubro, inicie as reformas que permitirão aos vizinhos recuperar parte da competitividade perdida com a desvalorização do real, segundo convicção partilhada por economistas de ambos os países.
Mais de 30% das vendas externas argentinas têm o Brasil como destino. Por isso, a recessão brasileira afetou tão profundamente a economia vizinha. Depois de crescer 8% em 1997 e mais 3,9% no ano passado, a Argentina caminha para encerrar 1999 com uma recessão que pode chegar muito próximo de 3,5%, segundo estimativas da Consultoria Ecolatina, de Buenos Aires, e do Deutsche Bank. "A Argentina precisa recuperar competitividade com reformas estruturais", diz Roberto Lavagna, diretor da Ecolatina. Ele lista como reformas necessárias o corte de gastos públicos, a modificação do sistema financeiro, para reduzir o spread cobrado nos financiamentos, a redução do preço dos serviços privatizados (luz e gás, entre outros) e reforma trabalhista.
A desvalorização do real, em janeiro, está na raiz da crise entre os países, mas não é a causa principal. Ela tornou os produtos brasileiros mais baratos que os dos vizinhos. É muito difícil para a Argentina consertar a situação com desvalorização do peso porque o efeito sobre os preços internos seria devastador, ao contrário do que no Brasil, compara Lavagna. Ao fazer a paridade de sua moeda com o dólar, a Argentina induziu empresas e pessoas físicas a tomar dívidas em dólar. Calcula-se que 85% das dívida pessoais (hipotecas, aluguéis, cartões de crédito, empréstimos) estão dolarizados. A desvalorização do peso faria todas essas dívidas crescerem na mesma proporção da correção cambial da noite para o dia.
A economista Mônica Baer, da MB Associados, têm dúvidas se é possível para Argentina recuperar a competitividade sem mexer no câmbio. Mesmo mantendo a dúvida, a economista observa que a saída da situação atual sem mudança das regras de jogo depende da melhora no cenário externo, além do maior crescimento brasileiro. A Argentina é uma grande exportadora de commodities e teve as exportações afetadas pela retração mundial e pela queda nos preços internacionais. Essa retração já fez a Argentina perder cerca de US$ 3 bilhões em 1998, valor que pode alcançar US$ 5 bilhões este ano. Culpa - A recessão brasileira tem uma parcela da culpa pela crise comercial envolvendo Brasil e Argentina, avalia o presidente do Conselho de Empresários da América Latina (Ceal), Roberto Teixeira da Costa. "Por isso, o crescimento do Brasil ajuda a sair dessa crise", observa. Ele também está convencido de que a Argentina precisa buscar uma saída sem mexer no câmbio.
Lavagna observa que também o Brasil precisa agir para evitar que "a crise se instale na região". Enquanto à Argentina cabe fazer as reformas, ao Brasil cabe estabilizar o câmbio. "Se o Brasil seguir desvalorizando seu câmbio continuamente, não adianta a Argentina ajustar sua economia", pondera, referindo-se à correção real.
Bloco - O Mercosul está passando por uma fase de transição e ajuste e a onda de protecionismo que deflagou a atual crise não vai provocar o fim do bloco, afirmam economistas. Para o ex-secretário da Câmara de Comércio Exterior (Camex), José Roberto Mendonça de Barros, as atitudes que estão sendo tomadas pela Argentina "são um gigantesco tiro no pé", que só se justificam por ser época de eleições no País vizinho. "Quanto mais barreiras os países impuserem, pior, pois eles serão os grandes perdedores".
Barros argumenta que muitos investimentos globais foram para a Argentina por causa do Mercosul. "Esses projetos podem ser revistos e transferidos para o Brasil", avalia, lembrando que isso já ocorreu com algumas linhas de montagem da indústria automobilística. Segundo o professor de Economia Internacional da Universidade de Brasília (UNB) Renato Baumann, a taxa de câmbio do real foi a âncora do Mercosul nos últimos anos.
A crise financeira nos dois países - com perspectivas de crescimento zero para o Brasil e de menos 3,5% para a Argentina, e nos demais mercados associada à desvalorização da moeda fez encolher o comércio entre os parceiros em 28%.

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