Brasília, 4 (AE) - Ainda na entrevista ao programa Bom Dia Brasil, da TV Globo, o presidente Fernando Henrique Cardoso disse que o crescimento da economia não depende da vontade do presidente da República. Ele lembrou que durante 10 anos (1982 a 1992) houve uma paralisação nesse crescimento e que de 93 em diante "salvo o ano passado", ele foi retomado. Fernando Henrique atribuiu a lentidão do crescimento a certos constrangimentos externos. "Nós não tínhamos recursos em moeda forte para fazer as exportações, e cada vez que você pisa no acelerador para crescer precisa importar também equipamentos e matéria prima", justificou o presidente que acredita que esta questão já está sendo solucionada. Outro fator impeditivo de crescimento, segundo o presidente, foi a taxa de juros, que agora está caindo. "A taxa de juros caiu consideravelmente; os juros que o governo paga, que estiveram em 45% ao ano, estão em 19%. É alta ainda, mas é bem mais baixa do que já houve. De modo que eu acho que o crescimento está aí", ressaltou. Mas para o presidente, o mais importante que o crescimento da economia é o bem-estar da população, com a distribuição de renda, mais educação e saúde. "E todos esses dados estão melhorando", lembrou o presidente que acredita que na próxima década será possível acabar com o analfabetismo no País.
Militares - O presidente Fernando Henrique Cardoso disse que não faltou reação do governo aos militares que se manifestaram contra ele, depois da demissão do comandante da Aeronáutica, no final do ano passado. "Eu fui obrigado a mudar o comandante da Aeronáutica, por uma razão que eu tenho certeza que não era da vontade do comandante, ele não fez nada para provocar isso; são circunstâncias", justificou. FHC discorda da avaliação de que ele seja ponderado demais e até hesitante. "Ainda bem que sou ponderado. O Brasil já foi governado por gente não ponderada. Deram todos com os burros nágua" afirmou FHC, para quem a ponderação é uma questão de temperamento, de "saber o que é a democracia". Ainda sobre a demissão do comandante da Aeronáutica, Fernando Henrique considerou a manifestação de apoio dos oficiais da reserva como um movimento de "senhores respeitáveis e idosos" e de outros, "com passado complicado, que nunca foram democratas".
"O que você quer que eu faça? Que eu prenda, arrebente? questionou Fernando Henrique, na entrevista concedida nesta manhã ao programa Bom Dia Brasil, da TV Globo. "Isso não é assim. O presidente não se excede, cumpre a lei. De modo que esse prende e arrebenta é coisa de regime autoritário. Agora, tem que ter pulso. Quando é necessário muda, quem quer que seja. O resto é agitação e eu não gosto de agitação. O Brasil precisa de paz, tranquilidade, trabalho, seriedade, responsabilidade e ponderação", afirmou. Para Fernando Henrique, alguns militares da reserva foram inconvenientes na manifestação. Sem citar nomes
o presidente disse que o deputado Jair Bolsonaro "passou dos limites" ao defender o fuzilamento do presidente da República. "A Câmara é que deve cuidar dele e tem que cuidar".
Congresso - O presidente disse também que nunca no Brasil houve uma base parlamentar que votasse tão favoravelmente ao governo. Ele citou como exemplo a aprovação do fator previdenciário, da lei sobre a contribuição dos inativos, que depois o Supremo Tribunal Federal anulou, das 16 emendas constitucionais, e das leis que mudam a legislação agrária. "O que vocês querem? Que eu dê ordem unida ao Congresso", questionou o presidente, que admitiu a falta de uma organização partidária no Brasil. "Isso é uma realidade histórica. E com isso e tudo eu não tive nenhuma crise institucional", ressaltou. "Estamos fazendo muitas transformações no Brasil, num clima de respeito institucional, com uma base heterogênea, que muitas vezes vota naquilo que não acredita muito, mas que sintoniza com a sociedade", afirmou.