Crescimento da economia depende de confiança e crédito, diz estudo da Fazenda
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quarta-feira, 12 de abril de 2000
Por Renato Andrade 
Brasília, 13 (AE) - O governo brasileiro acredita que não haverá uma recuperação espontânea da economia este ano. "Um sistema que passa por um ajuste fiscal, cambial e monetário na dimensão daquele realizado pelo Brasil (em 1999), quando bem sucedido, tem o espaço e a necessidade de gerar a recuperação através da política monetária e do crédito, uma vez que o setor externo contribui, mas não substitui a demanda interna", avalia a Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda, em estudo elaborado sobre a economia brasileira pós-desvalorização, assinado pelo secretário Edward Amadeo, e seu adjunto, Fernando Montero.
"Em outras palavras, a retomada do crescimento será movida a confiança e crédito", argumentam os secretários, no estudo. De acordo com a análise, essa perspectiva de recuperação por meio de "confiança e crédito" vem norteando o esforço do Banco Central em estimular a queda das margens financeiras, o aumento da disponibilidade de recursos e a redução dos juros. "O clima de maior confiança e tranquilidade também aumenta a previsibilidade e reduz os riscos, propiciando maiores investimentos e expansão do crédito", diz o documento.
Amadeo e Montero avaliam que apesar das atuais incertezas no ambiente externo, elas são bem menores do que as de um ano atrás.
De acordo com estudo, as incertezas inflacionárias este ano continuam concentradas do lado da oferta. No ano passado, as pressões inflacionárias foram identificadas justamente neste lado. "O ano de 1999 foi marcado por três choques de oferta sobre os preços", comentam o secretário de Política Econômica, Edward Amadeo, e seu adjunto, Fernando Montero, no estudo elaborado pela Secretaria.
O primeiro choque ocorreu logo após a mudança do regime cambial, em janeiro, com os índices atingindo o pico em fevereiro. O segundo momento de pressão aconteceu nos meses de junho e julho, com o reajuste da maioria das tarifas públicas e dos combustíveis. O terceiro associou-se aos efeitos da entressafra agropecuária e da elevação do álcool combustível, no último trimestre do ano.
"A sucessão de choques de oferta manteve os índices de preços no atacado (IPA) pressionados", afirma o documento. Para este ano, existe um novo cronograma de reajuste de vários preços administrados. Combustíveis também são outra preocupação do governo brasileiro. "Os combustíveis, em virtude da alta mundial do petróleo, constituem outra variável de possível pressão ainda que o movimento recente dos preços internacionais tenha sido de queda", avaliam Amadeo e Montero no estudo elaborado pela Secretaria.
Em relação aos choques ocorridos no ano passado, somente a agricultura não preocupa o governo brasileiro este ano. "A agricultura deve ter impacto neutro nos índices, visto o patamar já muito elevado de preços alcançado no final do ano passado."
Pelo lado da demanda, a Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda acredita que o risco de inflação é baixo, já que houve uma contenção da renda.
A perspectiva do desempenho da balança comercial este ano, de acordo com análise da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda, é positiva. "O ano de 2000 começou com bom desempenho das exportações, impulsionadas pelas vendas de produtos manufaturados e semi-manufaturados", argumenta o secretário Edward Amadeo e seu adjunto, Fernando Montero, em estudo elaborado sobre a economia brasileira pós-desvalorização.
"Considerando-se uma estimativa de preços de exportação no período, pode-se inferir que o volume exportado de manufaturados no primeiro trimestre deste ano tenha sido cerca de 35% superior ao observado no mesmo período de 1999", argumentam os dois secretários. O estudo, no entanto, não faz menção sobre o déficit registrado na primeira semana de abril, que foi considerado preocupante pelo mercado financeiro. De acordo com o documento, apenas no mês de março, a média diária de exportações alcançou expansão de 38,6% em valor e de 45% em volume relativo a um ano atrás. "Estes resultados falam claramente da resposta da economia à desvalorização cambial."
Ainda de acordo com o estudo, a substituição de importações, pós-desvalorização, normalmente ocorre em dois momentos. Primeiro, há um efeito imediato a partir da maior utilização da capacidade já instalada, sobressaindo-se a recuperação do segmento de bens intermediários, como por exemplo, o setor de produtos têxteis.
Segundo, num período maior de tempo, a percepção de que o novo nível de preços relativos tende a prevalecer de forma duradoura termina por alcançar outros setores, cujo suprimento do mercado interno requer novos investimentos. "É muito provável que ainda estejamos assistindo apenas à primeira fase desse movimento de substituição de importações, de forma que neste ano as compras externas devem mostrar um comportamento moderado diante da recuperação da produção", argumentam Amadeo e Montero no estudo, mas acrescentam: "por outro lado, o coeficiente de exportação deve apresentar significativa recuperação, melhorando o desempenho comercial".
Ainda de acordo com estudo elaborado pela Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda, o mercado financeiro tem "sistematicamente" reduzido suas projeções de juros básicos da economia. "O mercado financeiro tem sistematicamente reduzido suas projeções, como se pode constatar pelas cotações no mercado futuro de juros", argumentam o secretário Edward Amadeo e seu adjunto, Fernando Montero, no estudo elaborado pela Secretaria.
Na avaliação dos dois, o Banco Central vem mantendo a taxa de juros "em patamares condizentes com o marco do regime de metas inflacionárias instituído no ano passado". O estudo destaca ainda que vem ocorrendo uma redução nos prêmios de risco de juros. "A redução da inclinação da curva de rendimentos, que retrata os prêmios de risco de juros para os diferentes prazos de contratos, bem como seu deslocamento para baixo, sinalizando a redução do custo atual praticado pelos bancos, tendem a beneficiar o tomador de crédito", avaliam. O estudo ressalta ainda que as autoridades monetárias estão empenhadas em melhorar a eficiência do sistema financeiro, estudando medidas que aumentem a transparência e reduzam as margens de intermediação nas operações de crédito.
"No mercado de crédito, há sinais inequívocos de recuperação nos segmentos indústria e crédito ao consumidor", avaliam. Segundo Amadeo e Montero, a expectativa de um bom desempenho para a economia em 2000, com maior estabilidade e, consequentemente, mais previsibilidade, deve reforçar o movimento de redução das margens e dos índices de inadimplência, estimulando a oferta e a demanda por crédito no País.


