Paris, 05 (AE) - Os sinais de abertura política na Argélia têm-se multiplicado nos últimos dias, após quase oito anos de uma sangrenta guerra civil na qual morreram mais de 100 mil pessoas. Só hoje (05), data nacional argelina, 5 mil presos políticos foram anistiados e começaram a deixar as prisões de Argel e do interior. Estima-se em 15 mil o número de prisioneiros políticos, quase na totalidade integrantes dos vários movimentos islâmicos, que deverão ser beneficiados pelo processo de "concórdia civil" anunciado pelo governo.
No plano externo, a abertura passa por uma tentativa de normalização das relações com os países europeus, principalmente com a antiga nação colonizadora, a França, onde vivem 900 mil imigrantes argelinos.
Só estão sendo anistiados os presos políticos que não cometeram crimes de sangue, atentados com explosivo, assassinatos individuais ou coletivos e estupros. Três outros gestos políticos do novo presidente, Abdelaziz Bouteflika, extremamente simbólicos, estão sendo esperados a qualquer momento na capital argelina: a suspensão do estado de emergência, em vigor desde 1992; a libertação do chefe histórico da Frente Islâmica de Salvação (FIS), Abassi Madani; e a criação de uma comissão de inquérito para investigar o problema dos "desaparecidos".
Outro sinal dessa abertura, no plano cultural, foi o show no domingo à noite do cantor Cheb Mami, conhecido como "o príncipe da música rai".
Ele voltou ao país depois de ter vivido exilado em Paris nos últimos dez anos, tendo reunido mais de 100 mil pessoas no centro de Argel, no chamado Santuário dos Mártires. Como se sabe, dois outros cantores foram assassinados pelos islâmicos radicais nos anos de guerra civil.
Essa anistia é a resposta esperada do governo ao gesto do Exército Islâmico de Salvação, braço militar do antigo FIS, que no mês de junho anunciou sua disposição de abandonar a luta armada, facilitando a disposição do governo de "restabelecer os laços entre os cidadãos eliminando, ao mesmo tempo, as causas da frustração".
Ainda com esse objetivo, o primeiro ministro Ismail Hamdani apresentou na Assembléia Nacional um projeto de anistia ampla, permitindo a muitos presos políticos e opositores na clandestinidade retomar suas casas e seu lugar na sociedade. O texto será aprovado pela ampla maioria governamental, mas deve também ser submetido a referendo.
Ele prevê uma redução gradual de pena aos arrependidos, dependendo do nível de participação na luta armada e da gravidade dos atos cometidos. Poucos são os casos em que elas devam ser superiores a cinco anos, tempo mais do que suficiente para que a normalidade seja restabelecida no país.
O segundo passo do presidente Bouteflika, cuja eleição foi fortemente contestada, inclusive pelos países europeus, entre eles a França, será a abertura econômica do país e a preparação de um vasto programa de privatizações.
A Argélia, país produtor de petróleo e gás, encontra-se muito atrasada nesse processo, mas poderá dar um passo importante nessa direção. Mesmo sendo um país africano, sua proximidade com a Europa, a exemplo de Marrocos e Tunísia, poderá facilitar o desenvolvimento de seu comércio com os europeus.
Para isso, vai ser preciso melhorar suas difíceis relações atuais com a ex-colonizadora, a França. Alguns gestos, dos dois lados, já são visíveis. O próprio presidente Jacques Chirac já manifestou seu desejo de visitar Argel quando possível. "Espero ter o prazer de visitar esse país, o que será uma grande alegria", afirmou domingo o chefe de Estado.
Na semana passada, na Suíça, durante uma reunião econômica, o presidente Bouteflika havia feito, de forma solene, um convite para o presidente francês visitar seu país. Não se pode esquecer que a guerra civil argelina, em algumas ocasiões foi transferida para o território metropolitano da França, onde foram praticados inúmeros atentados do Grupo Islâmico Armado, o GIA.
A empresa Air France, cujos vôos para Argel estavam suspensos desde o Natal de 1994, quando do sequestro de um Airbus por "revolucionários" argelinos, estuda as condições de segurança do aeroporto de Argel para restabelecer seus vôos regulares. Na semana passada, o ministro do Interior, Jean-Pierre Chevénement, visitou Argel. Ele é um dos membros do governo francês mais interessados na normalização de relações. Para que se tenha uma idéia, o tráfico aéreo entre os dois países já foi da ordem de 2 milhões de passageiros ano.
Outra decisão importante é a abertura francesa em matéria de vistos temporários de entrada na França, o que permitirá a parentes dos imigrantes argelinos ingressar no território francês em períodos de férias e feriados longos.

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