Crescem rumores sobre desmembramento da Microsoft Da correspondente Leda Beck
São Francisco, 24 (AE) - Crescem os rumores de que o governo americano e os procuradores-gerais dos 19 Estados que processam a Microsoft deverão mesmo pedir o desmembramento da empresa em pelo menos duas: uma só para os sistemas operacionais Windows e a segunda para aplicativos como o Office 2000. Uma terceira empresa poderia ser criada para tudo que envolvesse Internet, inclusive o navegador de Web Explorer, centro de outra ação vencida pela Microsoft em 1998. Por isso mesmo, também está em discussão a possibilidade de deixar o Explorer e outras aplicações e negócios desse tipo junto com a empresa de sistemas operacionais, caso a decisão final seja de dividir a Microsoft em apenas duas empresas. Mas também não faltam sugestões de parti-la em mais cinco ou seis pedaços, criando, por exemplo, duas empresas de sistemas operacionais, duas de aplicativos e assim por diante, de forma a garantir a existência de concorrência nesses segmentos.
Por causa dos rumores, as ações da empresa, que fecharam pouco abaixo de US$ 79 na quinta-feira (as bolsas americanas não funcionaram na Sexta-feira da Paixão), começaram a desabar já na madrugada de hoje (24), no pregão online, atingindo US$ 71. Durante a manhã, caíram mais de 15% e o Nasdaq, índice que concentra as ações de tecnologia, também desabou. Pior: vários analistas de mercado baixaram suas recomendações para a Microsoft. A Goldman Sachs tirou a empresa da lista de recomendações de compra, a Lehman Brothers baixou seu preço-alvo para a ação de US$ 130 para US$ 85 e a SG Cowen mudou sua opinião de "compra altamente recomendada" para um simples "compra".
"Não há nada no processo que justifique a adoção desse tipo de punição, que não é do interesse nem da indústria nem dos consumidores", disse um porta-voz da empresa, Greg Shaw, ao Washington Post, referindo-se ao possível desmembramento da Microsoft. "É difícil saber o que é apenas um balão de ensaio e o que é de fato uma proposta", acrescentou. Além do Post, outros dois grandes jornais americanos - o USA Today e o Wall Street Journal - publicaram hoje relatos sobre o assunto, todos baseados em conversas com fontes anônimas ligadas ao Departamento de Justiça.
O juiz Thomas Penfield Jackson, que no dia 3 declarou a Microsoft um monopólio predador, deu até esta sexta-feira para o governo apresentar suas propostas de punições para a Microsoft. Depois disso, a empresa terá duas semanas para a réplica e o governo mais uma para a tréplica. A sentença final deve ser emitida por Jackson, em princípio, no dia 24 de maio. A última vez que o governo americano interveio de maneira tão vigorosa no mercado foi em 1974, quando desmembrou o então monopólio da AT&T em quase dez empresas. Nas negociações que antecederam a fase da sentença, as propostas do governo eram muito mais suaves, prevendo apenas certas correções em práticas comerciais desleais da empresa. Mas, como a Microsoft já produziu uma história de desrespeito a acordos que assina com o Departamento de Justiça, a percepção agora é de que qualquer acordo mais modesto manterá o monopólio. Pior, ponderam analistas, é que, por causa do comportamento da Microsoft, seria provavelmente necessário nomear um juiz federal para "vigiar" a empresa - o que é visto como muito mais intrusivo do que o simples desmembramento.
Convém não esquecer, porém, que a punição radical é também a que tem maiores probabilidades de ser revertida em um tribunal superior. Essa preocupação deu o tom ao veredicto do juiz Jackson, cuja linguagem foi cuidadosamente escolhida e, em alguns momentos, quase expressamente dirigida ao tribunal de apelações do Distrito de Colúmbia (próxima instância no processo). E agora também está dando o tom à formulação das punições. Há, portanto, aparentemente, um hesitar entre ser o menos intrusivo possível no mercado - e, para isso, o desmembramento seria a solução mais efetiva - ou optar pela cautela processual, sugerindo punições menos severas, mas que exigiriam a vigilância da Justiça.





