Paris, 02 (AE) - Enquanto agrava-se o êxodo dos albaneses de Kosovo e intensificam-se os bombardeios da Otan, aprofundam-se na França as divergências sobre a oportunidade da ofensiva militar aliada e teme-se que essa crise possa ter graves consequências políticas internas.
Durante uma reunião dos ministros franceses com o chefe do governo, Lionel Jospin, o ministro do Interior, Jean-Pierre Chevenement, distribuiu um "manifesto filosófico" a seus colegas - um texto crítico que rejeita os fundamentos intelectuais e morais da ação militar decidida em total harmonia pelo presidente gaullista, Jacques Chirac, e pelo primeiro-ministro Jospin.
Depois dos comunistas que saíram às ruas para protestar, agora são os socialistas ou grupos políticos como o Movimento dos Cidadãos, presidido por Chevenement, que tornam públicas suas dúvidas sobre a estratégia dos dirigentes franceses. Nesse texto, de 1992, extraído de um livro do alemão Hans Magnus Enzensberger, Visões sobre a Guerra Civil, o ministro do Interior formula uma crítica violenta à ação política governamental inspirada pela "idéia dos direitos do homem".
As pressões da oposição conservadora são cada vez maiores pela demissão dos ministros comunistas e dos que contribuem para enfraquecer a unidade política da maioria nesse momento particular . No passado, durante a Guerra do Golfo, Chevenement - voz discordante da operação Tempestade no Deserto, apoiada pelo presidente François Mitterrand - não teve alternativa e foi obrigado a demitir-se do Ministério da Defesa.
A linha escolhida pelo ministro, pinçadas do texto de Hans Magnus Enzensberger (um intelectual alemão implicado nos debates intelectuais de seu país) opõe-se às palavras ditas por Jospin no debate da Assembléia Nacional: "Há décadas, a Europa, pelo menos a nossa Europa, foi fundada sobre a paz e o respeito aos direitos humanos. Aceitar que esses valores sejam desrespeitados às portas da União Européia seria uma traição."
O texto do intelectual da Baviera está na contramão da posição de Jospin: "A moral é o último refúgio do eurocentrismo. Chegou a hora de renunciar aos fantasmas de uma moral onipotente. Ninguém pode deixar de examinar seus diferentes graus de responsabilidade ou de fixar prioridades."

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