‘‘Mamãe, já tomei tudo!’’ Foi com esta frase que o pequeno Henrique Sogayar, de 4 anos, mostrou o vidro de colírio para Cintia Sarmento Sogayar, com um sorriso suspeito no rosto. ‘‘Foi em questão de segundos. Ele estava com uma infecção no olho, pinguei o remédio e só percebi o acidente quando meu filho mostrou o frasco vazio’’, lembra a advogada, que é mãe também de Deborah, de 10, e Rodrigo, de 6. Por sorte, a travessura do menino mais novo não causou nenhum problema sério e hoje rende até algumas risadas.
  Se nas férias escolares de julho sobra tempo para as crianças aprontarem em casa e deixar as mães de cabelo em pé, é nessa hora que a atenção deve redobrar. Acidentes domésticos são freqüentes no período e nem sempre deixam lembranças agradáveis.
  De acordo a organização não-governamental Criança Segura, é nas residências que mora o perigo dos afogamentos, quedas, intoxicação e queimadura. ‘‘Nas férias de julho, as crianças nem sempre viajam e ficam muito mais tempo em casa. Por isso, aumenta bastante a ocorrência de acidentes, que podem deixar seqüelas graves e até levar à morte’’, adverte a coordenadora da ONG, Fabiana Kurik.
  O alarde da coordenadora não é à toa. O último balanço do Ministério da Saúde mostra que 13% das mortes na infância são causadas por acidentes caseiros. A mãe de Henrique, por exemplo, é muito cautelosa com a proteção da casa. Mesmo assim, não foi difícil acontecer uma pequena falha. ‘‘As janelas são protegidas com telas, as facas e tesouras ficam no fundo da gaveta, as crianças só usam copo e talher de plástico e os produtos de limpeza também ficam no alto. Apesar disso tudo, algumas vezes, elas conseguem me pegar de surpresa’’, conta Cíntia.
  Segundo a coordenadora da ONG Criança Segura, para evitar acidentes domésticos, é preciso adaptar a casa ao filhos e não o inverso. ‘‘Os pais acreditam que ensinar as crianças a não ficar próximas do fogo é suficiente. É um engano porque, principalmente até os cinco anos, os pequenos não têm capacidade de compreender o risco que os objetos oferecem’’, alerta Fabiana.
  Engana-se quem pensa que acidente doméstico acontece apenas dentro de casa. Na lista de riscos para as crianças, também entram o quintal e a rua - brincadeiras com patins, skate e bicicletas, que podem resultar até em atropelamentos.
  Em 2004, último ano do estudo realizado pelo Ministério da Saúde, só esses fatores foram responsáveis por 2. 774 internações em hospitais públicos e mais de 130 mortes de pessoas com menos de 14 anos.
  Mesmo com toda a superproteção, a criançada sempre dá um jeito de aprontar alguma coisa. A dica, então, é reduzir as possibilidades de danos. ‘‘Não queremos que os pais fiquem neuróticos. Medidas simples, como não deixar o cabo da panela para fora do fogão, são suficientes para evitar queimaduras’’, completa a coordenadora da ONG.
  Cuidado é o segredo para fugir do perigo. Com isso, a criança aprende a não transformar o mês de férias em uma lição de casa difícil de resolver.

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