Pressão alta pode causar derrame, enfarto e até provocar a morte. Mesmo
assim, a aposentada Maria da Conceição Nunes, de 63 anos, decidiu suspender por 50 dias o uso de medicamentos para controle que ingere há anos. Bronquite crônica também mata, sobretudo crianças. Apesar do medo, a dona de casa Marta Regina Marques não hesitou em assinar um documento que autorizava a aplicação de remédios desconhecidos em seu filho Marcelo, de nove anos.
Não se trata só de gente corajosa. As duas mulheres têm em comum a falta de um plano de saúde capaz de suprir suas necessidades médicas. É pelo mesmo motivo que, a cada ano, cerca de 600 mil brasileiros aceitam participar de experimentos médicos. ''É claro que a maioria dos voluntários não colabora com pesquisas por se preocupar com o desenvolvimento da Ciência. No Brasil, que tem um sistema de saúde muito precário, o sujeito vê no teste a chance de receber atendimento médico primoroso'', diz a presidente da Sociedade Brasileira de Profissionais em Pesquisa Clínica, Greyce Lousana.
Em 2004, o Brasil aprovou 1.911 projetos de pesquisa. Já em 2005, só até julho, foram 3.780, quase todos realizados por laboratórios internacionais. Para o próximo ano, o recrutamento de cobaias humanas deve crescer ainda mais, já que até a heroína da novela das oito resolveu transformar seu belo corpinho em campo de testes. Em ''América'', Sol (Deborah Secco) permite a instalação de um chip em seu organismo para ganhar dinheiro. Ainda que tal idéia pareça ser ótima fonte de renda, vale lembrar que no Brasil o serviço não é remunerado.
Por aqui, quem aceita passar por rato de laboratório recebe só reembolso por gastos com transporte e alimentação. Marta, a mãe que emprestava seu filho para testes contra bronquite, recebia R$ 30 em vale-refeições por consulta. Parece pouco, mas a quantia pode trazer alívio imediato para uma família como a dela, cujo orçamento nunca ultrapassa R$ 400. ''Tenho três filhos e só meu marido trabalha, fazendo bicos como técnico de ar condicionado. Com os vales, eu comprava carne e frutas para as crianças. Não é toda semana que podemos ter a geladeira cheia.''
Mais do que diversificar o cardápio da família, a inclusão em uma pesquisa clínica garantia ao garoto Marcelo atendimento médico sem filas, com direito a exames agendados e até motorista particular. ''Moramos em uma casa de um só cômodo, caindo aos pedaços. Eu nunca teria como pagar um plano de saúde. Quando Marcelo era bebê, cheguei a pegá-lo no colo, no meio da madrugada, e sair a pé para o posto de saúde. Quando chegava lá, mal olhavam para ele'', lembra.
Quem participa de um teste é monitorado diariamente, uma postura que nem mesmo clínicas particulares costumam adotar. ''Mesmo que o paciente apresente uma reação simples ao medicamento testado, como dor de cabeça, pode ligar a cobrar para o centro. Dependendo do caso, a equipe vai buscá-lo em casa e tudo é anotado em relatórios'', conta Greyce. É a partir do relato de efeitos colaterais verificados em voluntários que laboratórios elaboram as bulas de remédio.

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