Conforme pesquisa divulgada na última sexta-feira (17) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), cada vez mais, os brasileiros vêm escolhendo morar sozinhos, ao invés de com a família ou amigos. O padrão se repete no Paraná, onde a espécie doméstica unipessoal - residência em que se vive uma pessoa - apresentou o maior crescimento proporcional entre os diferentes núcleos familiares, passando de 11,4% em 2012 para 18,7% dos domicílios em 2025. Londrinenses que optam pela moradia solo prezam pela liberdade e flexibilidade, mas consideram que existem desafios em não ter alguém para dividir as responsabilidades domésticas e financeiras.

A PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) 2025 revelou que, a nível nacional, o arranjo nuclear ainda é o predominante em todos os estados, com 65,6% das habitações. Porém, ele caiu em relação a 2012, quando chegava a 68,4%. Este cenário familiar ocorre quando há pelo menos um casal, mãe com filhos ou pai com filhos vivendo juntos. O formato é observado em 69% das residências paranaenses, sendo que a casa segue como o tipo de unidade doméstica prevalecente no estado, com 83,5% das unidades.

Ainda no Paraná, o número de moradores por domicílio passou de 3,0 para 2,6 de 2016 a 2025, com a grande maioria residindo na área urbana - 89,6% residências, contra 10,4% na área rural.

‘Mais pontos positivos do que negativos’

A pesquisa mostrou diferenças por idade e gênero entre as pessoas que moram sozinhas em todo o país. Entre os homens, 56,6% dos que se encaixam no cenário têm entre 30 e 59 anos de idade. Já entre as mulheres, o maior percentual (56,5%) é entre aquelas com 60 anos ou mais.

Se enquadrando no padrão, Hector Ferreira tem 31 anos e se mudou, há 11 meses, para um apartamento alugado na região central de Londrina, onde vive após seu divórcio. O supervisor de eventos contou que segue em uma fase de adaptação após a mudança, contando que tem redescoberto gostos e preferências.

“Tem sido um aprendizado. Ter a liberdade de fazer as coisas no momento que eu quero, quando eu quero, tanto na organização da casa como também nas dinâmicas do dia a dia. Coisas simples, tipo chegar do trabalho e ouvir música alta, assistir TV na hora que eu quero e o que eu quero. Essa dinâmica fica muito mais livre quando você mora sozinho”, elencou Ferreira.

Hector Ferreira vive sozinho no centro de Londrina há quase um ano: "Tem sido um aprendizado"
Hector Ferreira vive sozinho no centro de Londrina há quase um ano: "Tem sido um aprendizado" | Foto: Arquivo pessoal

Ele pontuou que a vivência solo é “muito benéfica” para ele, considerando que não precisa ceder às vontades de outra pessoa. Pensando nos desafios em não ter um companheiro de residência, disse que as contas pesam no bolso ao final do mês. “O que mais pega morando sozinho é a questão financeira, ainda mais no momento que a gente vive. Ter que lidar com a responsabilidade de pagar todas as contas e a organização financeira são os pontos negativos”.

Ferreira mencionou ainda que “às vezes, bate alguns momentos de solidão”. Mesmo assim, garantiu que as vantagens superam os malefícios, tanto que ele abre mão de outros gastos para poder seguir morando sozinho, e assim, manter a sua individualidade. “Eu sempre repenso, será que volto a morar na casa da minha mãe, da minha avó, que moram aqui em Londrina? Mas vale a pena”, completou.

Sem grandes desafios

Sobre a condição de ocupação das residências Brasil afora, a PNAD quantificou a proporção de imóveis alugados: alta de 5,4 pontos percentuais desde 2016, crescendo para 23,8%. Enquanto isso, as habitações próprias quitadas caíram para 60,2%, redução de 6,6 pontos percentuais no mesmo período.

A PNAD classifica os tipos de domicílios em três: casa; apartamento; ou habitação em casa de cômodos, cortiço ou cabeça de porco. A predominância das casas ainda está em vigência, mas diminuiu para 82,7%, ao passo que os apartamentos subiram para 17,1%.

Aos 59 anos, Francisca Celestino é dona de um imóvel próprio há uma década, residindo em uma casa no Jardim Santa Rita, região oeste de Londrina. Um de seus filhos morou com ela brevemente cerca de cinco anos atrás, mas se mudou após reatar o casamento com a ex-esposa. Desde então, a empregada doméstica aproveita a liberdade proporcionada pela vivência só. “Não tem aquele compromisso de estar cozinhando, fazendo tudo na hora certa, aí eu faço a hora que eu quero, a hora que eu tenho vontade e saio quando eu quero”, informou Celestino.

Ela contou que não enfrenta nenhum desafio grande ao não ter alguém morando com ela, porém, disse que seria benéfico ter uma pessoa com quem pudesse dividir obrigações, como ir ao mercado, descarregar as compras e realizar afazeres domésticos. Ainda pontuou que não tem intenção de voltar a morar com ninguém, mas que estaria disposta a receber um familiar “se fosse para ajudar”.

Francisca Celestino tem casa própria na zona oeste e, morando sozinha, se sente livre para "fazer o que quer na hora que quer"
Francisca Celestino tem casa própria na zona oeste e, morando sozinha, se sente livre para "fazer o que quer na hora que quer" | Foto: Heloísa Gonçalves

Recorte pesquisado

A edição 2025 da PNAD reuniu os dados de cerca de 168 mil domicílios que participaram da amostra ao longo do ano de referência. A pirâmide etária montada com as informações reforça o processo de envelhecimento populacional no Paraná, ao longo da série histórica.

Entre 2012 e 2025, todas as faixas etárias até 24 anos apresentaram redução, com destaque para o grupo de 15 a 19 anos, que registrou a maior queda proporcional (-19,2%). Por outro lado, a população a partir dos 25 anos cresceu de forma consistente, especialmente entre os grupos mais envelhecidos. As faixas de 60 a 64 anos e de 70 a 74 anos apresentaram os maiores avanços, com 58,5% e 78,5% respectivamente, evidenciando o aumento da participação de idosos na estrutura etária do estado.

(Com IBGE)

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