Rio - Para as mulheres a década de 90 foi marcada pelo fortalecimento de sua participação no mercado de trabalho e o aumento da responsabilidade no comando das famílias. A mulher, que representa a maior parcela da população (86,2 milhões dos 169,8 milhões de habitantes), viu aumentar seu poder aquisitivo, o nível de escolaridade e conseguiu reduzir a defasagem salarial que ainda existe em relação aos homens.
Ontem, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou dois estudos com o balanço dos ganhos e das dificuldades enfrentadas pelas brasileiras ao longo dos anos 90. A renda média das trabalhadoras passou de R$ 281 para R$ 410. As famílias comandadas por mulheres passaram de 18% do total para 25%.
A média de escolaridade dessas ‘‘chefes de família’’ aumentou em um ano - de 4,4 para 5,6 anos de estudos. A média salarial passou de R$ 365 em 1991 para a R$ 591 em 2000. Uma dificuldade a ser vencida é a taxa de analfabetismo, que ainda está em 20%.
Outra característica da década foi consolidar a tendência de queda da taxa de fecundidade. As mulheres têm hoje 2,3 filhos. Há 40 anos, eram 6,3 filhos.
Uma mulher independente, que vive nos centros urbanos, cuja escolaridade vem aumentando, mas, ao mesmo tempo, precisa superar dificuldades como a renda menor do que a dos homens é a típica brasileira que comanda um quarto das famílias no País. Os dados do Censo 2000 divulgados pelo IBGE apontam que, na década de 90, o porcentual de famílias sob responsabilidade feminina aumentou de 18% para 24,9%. As ‘‘chefes de família’’ representavam apenas 8,5% da população feminina em 1991. Em 2000, já eram 13%. São 11,1 milhões de mulheres nesta condição, de um total de 86,2 milhões de brasileiras.
Em geral, o critério usado pela população recenseada para escolher o responsável pela família é quem tem a maior remuneração. Os demógrafos do IBGE calculam que a renda da pessoa-referência representa 70% do orçamento familiar. A renda média das chefes de família, apurada em agosto de 2000, era de R$ 591. Houve um aumento de 60% no rendimento da mulher que comanda as famílias. Em 1991, a renda média era equivalente a R$ 365.
No entanto, 5,5 milhões de mulheres chefes de família não ultrapassam os R$ 276 de rendimento mensal. É a chamada renda mediana, que divide ao meio o universo estudado. A renda mediana cresceu 78% (era equivalente a R$ 155 no início da década). Em dez dos 27 Estados (os nove do Nordeste mais Tocantins) a renda mediana das mulheres responsáveis pelos domicílios é de apenas um salário mínimo (R$ 151 em agosto de 2001). A renda média das chefes de família nordestinas é a mais baixa, de R$ 376, enquanto a do Sudeste chega a R$ 712 mensais.
A defasagem em relação aos homens ainda é grande. A média de renda dos chefes de família é de R$ 827 mensais, ou R$ 236 a mais. No Sudeste, eles recebem R$ 1.023 em média. A renda mais baixa é dos chefes de família nordestinos, de R$ 474.
O aumento do número de mulheres chefes de família não refletem apenas emancipação feminina. No Nordeste, por exemplo, são consequência também da migração de homens para outras regiões, em busca de emprego. É entre as famílias nordestinas que está a maior proporção de chefes mulheres - são 25,9%. Muito perto está o Sudeste, onde 25,6% dos domicílios têm uma mulher como referência. Outros fenômenos que explicam o crescimento das mulheres como pessoa-referência são os divórcios e separações, ou o simples abandono, além das mães solteiras, que nunca viveram com os pais de seus filhos.
Um terceiro fator é o fato de que as mulheres vivem bem mais do que os homens. Muitas ficam viúvas e passam a ser a referência familiar.

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