Em um dos seus resultados mais polêmicos, o censo de 1991 mostrou que, pela primeira vez na história, o País registrara um fluxo de brasileiros para o exterior ao longo dos anos 80 - a chamada ‘‘década perdida’’. Até então, para todos os efeitos, os demógrafos consideravam a população do Brasil fechada: como os fluxos de saída eram insignificantes, apenas natalidade e mortalidade contavam na hora de fazer projeções para o futuro. Com o censo de 1991, veio a constatação de que seria também necessário levar em conta a saída de brasileiros para o exterior na hora de fazer o balanço final.
Embora o número de brasileiros no exterior seja pequeno, algo em torno de 1% do conjunto da população, o fato aponta uma reversão - afinal, o Brasil sempre foi um destino tradicional de fluxos migratórios internacionais, desde a colonização portuguesa, e com mais intensidade desde que a navegação a vapor inaugurou a era das grandes migrações transoceânicas, por volta da metade do século 19. A partir de 1980, porém, o Brasil registra também um pequeno, mas constante, fluxo de saída. Os brasileiros no exterior começam a chamar a atenção da imprensa, dos pesquisadores e até do Itamaraty. E, numa demonstração definitiva de que o tema é instigante, os dekasseguis, como são chamados os brasileiros no Japão, acabam de aterrissar na nova novela das oito da Rede Globo, ‘‘Laços de Família’’, que teve como alguns de seus cenários as cidades de Kyoto, Nikko, Kamakura e Tóquio.
FENÔMENO NOVO Dizer que o Brasil se tornou um país de emigrantes talvez seja um exagero. ‘‘Países de emigração são nações como Cabo Verde, Porto Rico ou República Dominicana, onde a maior parte do Produto Nacional Bruto provém de remessas de cidadãos vivendo fora’’, diz a socióloga Ana Cristina Braga Martes, autora de Brasileiros nos Estados Unidos, um estudo pioneiro sobre imigrantes brasileiros em Massachusetts.
‘‘Embora o percentual seja pequeno, não há dúvida que se trata de um fenômeno social novo e importante’’, avalia Ana Cristina. A pesquisadora faz parte de um grupo de historiadores, sociólogos e demógrafos interessados nesse novo aspecto da realidade social do país.
Uma série crescente de trabalhos sobre brasileiros nos Estados Unidos, na Europa e no Japão - os destinos mais frequentes fora da América Latina - tem discutido as razões e significado do fenômeno. ‘‘A partir dos anos 80, o Brasil torna-se um país também de emigrantes’’, concorda a pesquisadora Teresa Sales, autora de Brasileiros Longe de Casa e co-autora da coletânea Cenas do Brasil Migrante, mais dois exemplos da produção recente sobre o assunto.
DIFICULDADES Embora seja difícil precisar exatamente quantos são, cálculos realizados pelo professor José Alberto Magno de Carvalho, da Universidade Federal de Minas Gerais, indicam que diferenças encontradas no censo de 1991 em relação ao que seria esperado com base nas projeções fazem supor a existência de 1 milhão a 2 milhões de brasileiros no exterior.
A presença de um contingente significativo de ilegais torna difícil chegar a um número mais exato. Mas, a grosso modo, essas cifras são confirmadas pela experiência dos consulados no exterior, de acordo com Lúcio Pires de Amorim, diretor de Assuntos Consulares do Itamarati.
Vivendo em outros países, muitas vezes ilegalmente, os brasileiros enfrentam dificuldades como línguas e culturas estranhas. Segundo Amorim, há cerca de 1.300 brasileiros presos em outros países, cumprindo sentenças penais.

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