Londrina - Famílias cada vez menores e a crescente expectativa de vida da população resultam em uma nova configuração das moradias brasileiras. Vivendo mais e sem muitos parentes por perto, aumenta o número de idosos que moram sozinhos.
Em 2002, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicavam que havia 1,9 milhão de pessoas com 60 anos ou mais em unidades residenciais unipessoais (apenas uma pessoa na casa). Apenas dez anos depois, a pesquisa registrou aumento de 90% no índice, com 3,7 milhões de idosos morando sozinhos. Outro dado confirma a tendência: entre todas as faixas de idade, os mais velhos correspondem a 42,3% das pessoas que vivem em residências com estas características.
No Paraná a situação é semelhante. Em 2002 eram 112,5 mil idosos morando sós, contra 214,3 mil em 2012, um aumento de 90,4%. No Estado, entre todas as residências unipessoais, 46,1% acolhem pessoas com 60 anos ou mais.
"É uma tendência que reflete o comportamento demográfico da população", afirma o professor doutor Renato Veras, diretor geral da Universidade Aberta da Terceira Idade (Unati), da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Segundo ele, há algumas décadas as famílias eram numerosas, o que significa que sempre havia alguém disponível para cuidar das pessoas com idade mais avançada. "Era comum ter uma filha solteira que ficava com os pais", exemplifica.
Atualmente, as famílias têm menos filhos e experimentam maior mobilidade, o que implica em morar em cidades diferentes e filhos com menos possibilidade de se dedicarem aos cuidados dos pais. Soma-se a isso o fato das pessoas viverem por mais tempo e está explicado o aumento no índice de idosos morando sozinhos.
As pessoas com mais condições financeiras podem recorrer a cuidadores ou outras estruturas de apoio para garantirem a própria segurança e autonomia. As de menor renda, porém, correm o risco de ficar desamparadas sem o apoio da família. "Nestes casos, acabam contando com a solidariedade de vizinhos e outras pessoas próximas. É um problema mundial, mas no Brasil parece ser pior porque a população envelheceu rápido e o país não se preparou para isto", destaca.
Veras alerta que uma das maiores necessidades, em termos de políticas públicas, é garantir acessibilidade na estrutura das cidades, com caminhos adaptados e transporte adequado para garantir a possibilidade de ir e vir com autonomia e segurança. Outra prioridade é investir na prevenção de doenças crônicas que, além de serem caras de tratar, reduzem a qualidade de vida. Casas mais adequadas e a disponibilidade de cuidadores profissionais ou familiares para apoiar o idoso são outras demandas que serão cada vez mais discutidas. "Viver mais é uma conquista, mas temos que nos preparar para isto", aponta.
A falta de políticas públicas voltadas para a população com mais de 60 anos também pode causar um problema social que extrapola questões relativas à idade. Segundo Veras, nas famílias com menos recursos financeiros, é comum algum dos membros deixar o trabalho para cuidar do idoso que não pode mais ficar sozinho. "A renda diminui, a alimentação da casa piora e a qualidade de vida do idoso acaba sendo prejudicada", afirma.
Por outro lado, ele defende a preservação da autonomia de morar sozinho quando há condições para isto. "Mas sempre será preciso um apoio para tarefas domésticas e outras necessidades, como fazer compras", reforça, acrescentando que as famílias não podem deixar o idoso "por conta própria". "Isto não é autonomia. É abandono", opina.
Outro alerta diz respeito à necessidade dos familiares se preparem para o envelhecimento, pois a tendência é que os idosos fiquem cada vez mais dependentes. "É uma situação que não melhora com o tempo", adverte.

Imagem ilustrativa da imagem Cresce índice de idosos que moram sozinhos
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