O segundo dia de exames para diagnóstico da doença de Chagas entre pacientes de Londrina que beberam caldo de cana em Santa Catarina teve procura bem maior do que o anterior. A Secretaria Municipal de Saúde precisou estender o horário de atendimento para coletar amostras de sangue de 218 pessoas. Anteontem apenas 74 procuraram o serviço. Hoje é o último dia do esquema especial de exames montado no Pronto Atendimento Municipal (Área Central).
Até agora, não houve nenhum registro de pacientes infectados pelo mal de Chagas na cidade após ingestão de caldo de cana. A gerente de Epidemiologia do Município, Sônia Fernandes, afirmou que a secretaria não tem estimativa de quantos moradores de Londrina teriam consumido o produto no litoral norte de Santa Catarina entre os meses de fevereiro e março, mas acredita num número expressivo.
Segundo a coordenadora do ambulatório de Chagas do Hospital das Clínicas (HC) da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Divina Sella de Oliveira Marques, o setor está preparado para atender eventuais casos da doença em sua forma aguda - a mesma registrada no surto catarinense - embora esse tipo seja bastante raro no município e região. O tratamento é feito com o benzonidozol, medicamento que deve ser tomado durante 60 dias.
O ambulatório de Chagas do HC é um dos maiores do País e os especialistas locais detêm uma vasta pesquisa na área. Por essa razão, O Hospital Universitário (HU) de Londrina foi escolhido para conduzir parte da pesquisa nacional com células-tronco, tendo como uma das linhas de pesquisa a cardiopatia chagásica.
Atualmente, setecentos pacientes com Chagas estão cadastrados no HC. Eles são de Londrina e de outros diversos municípios da região, incluindo o Norte Velho. A coordenadora explicou que a maioria foi infectada, mas jamais desenvolveu a doença. Os demais são pacientes crônicos, que sofreram tardiamente os efeitos da moléstia, numa fase em que praticamente não há cura. ''O índice de cura entre pacientes na fase aguda da doença de Chagas, quando tratados, é de 70%. Já entre os crônicos esse índice é muito baixo, nem temos estatísticas'', frisou.
Embora o número de pacientes de Chagas seja alto em Londrina, Divina garantiu que o Triatoma infestans, espécie mais comum do inseto barbeiro, já foi erradicado do município e do restante do País. ''O último caso de transmissão da doença por meio de picada em Londrina ocorreu pelo menos 20 anos atrás. Na década de 80, até meados dos 90, houve um trabalho nacional para erradicar o mosquito e equipar hospitais para prevenção e acompanhamento da doença'', sublinhou. Segundo ela, o inseto que provocou o surto em Santa Catarina foi provavelmente uma outra espécie de barbeiro.
O chefe do departamento municipal de Vigilância Sanitária, Marcelo Vianna de Castro, declarou que até ontem o órgão não havia realizado nenhuma vistoria extraordinária no comércio local de caldo de cana, ''mesmo porque não houve nenhum indício ou denúncia de problemas''. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) também não recomendou nenhum tipo de providência, segundo Castro. ''A verificação que sempre fazemos é com relação à higiene, independente destes surtos. Mas seria impossível garantir 100% que não há presença de insetos na manutenção da cana.''

mockup