Cresce a participação das mulheres na área científica
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de fevereiro de 2000
por Simone Biehler Mateos 
São Paulo, 5 (AE) - O futuro da ciência brasileira está nas mãos das mulheres. É isso pelo menos o que indicam as estatísticas sobre a área no País. Elas já representam mais da metade dos pesquisadores com menos de 30 anos no País e 61% da novíssima geração com menos de 25. Há apenas 40 anos, três em cada quatro cientistas eram homens. Hoje, as mulheres representam 41% desse universo. Elas também já são maioria na área de humanidades (58%), saúde (53%) e ciências biológicas (52%). Esses números, extraídos dos registros do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a agência responsável pelo maior número de bolsas para pesquisa concedidas no País, confirmam o avanço feminino na área científica.
O fenômeno é mais acentuado nas ciências agrárias, em que a presença feminina cresceu seis vezes nos últimos 40 anos. Nessa área, as mulheres representam apenas 9% dos pesquisadores com mais de 64 anos, mas já somam 56% dos que têm menos de 25 anos.
Na saúde, a participação feminina triplicou: elas são apenas 19% dos veteranos (mais de 64 anos), mas 62% dos cientistas com menos de 30 anos. Na área de biologia, o porcentual dobrou: elas são 28% da velha guarda e 60% da nova geração. Mesmo em territórios ainda dominados por homens, como a engenharia, a presença feminina dobrou.
O aumento do número de mulheres no meio científico espelha o seu avanço no mercado de trabalho. Mas não é só. Ele também atesta o acelerado crescimento do nível de escolarização das mulheres no País - que está ocorrendo num ritmo superior ao dos homens. Hoje, a maioria dos alunos matriculados no ensino médio (56%) e superior (54%) é formada por mulheres.
A virada ocorreu na década de 90, quando as brasileiras suplantaram os brasileiros em termos de anos médios de estudo. Entre 1990 e 1996, a média aumentou de 5,1 anos para 5,7 entre os homens e de 4,9 para 6 entre as mulheres. A porcentagem da população feminina que havia concluído o ensino médio em 1996 era de 17,3%, enquanto entre os homens ela ficava em 15,1%.
Entre a população mais velha, o número de mulheres com baixo grau de instrução é maior que o dos homens. Já entre as pessoas com menos de 40 anos, o porcentual de analfabetos é mais baixo entre as mulheres que entre os homens. Na faixa de 15 a 19 anos, a taxa masculina é o dobro da feminina: 7,9% ante 4%.
Desempenho - É interessante observar as diferenças de rendimento escolar entre os sexos. Tradicionalmente, as mulheres são melhores em português e piores em matemática, biologia, física e química. O curioso é que, quanto mais desenvolvida a região, melhor o desempenho das mulheres em relação aos homens. Assim, nas Regiões Sul e Sudeste, a vantagem feminina sobre os homens em português é ainda maior, enquanto que a supremacia dos homens nas outras áreas é menor.
Apesar de mais instruídas, porém, as mulheres continuam ganhando menos, embora a diferença esteja caindo. Em 1992, a remuneração média das mulheres equivalia a 53,2% da dos homens, porcentual que subiu para 58,5% em 1996. Aliás, a baixa remuneração que ainda existe no País no meio científico pode ser uma das razões do aumento da presença feminina nessa área. "Os homens com os altos níveis de qualificação exigidos para pesquisa vão para atividades mais rentáveis", diz Schirley Schreier, pesquisadora do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP). "Já vi vários desistirem do doutorado por um emprego."
Os números parecem confirmar essa opinião. Uma bolsa para pesquisador no Brasil varia de R$ 330 (bolsa de iniciação da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo - Fapesp - para estudantes de graduação) até R$ 4.120 (a melhor bolsa do CNPq, para pesquisadores experientes). Uma bolsa para doutorado oscila entre R$ 1.072 (CNPq) e R$ 1.770 (Fapesp), enquanto uma de pós-doutorado fica entre R$ 2.218 e R$ 2.570.
A situação não é muito melhor entre os pesquisadores contratados que, no topo da carreira, ganham cerca de R$ 5 mil. Na iniciativa privada, o salário é maior, mas ela só absorve 12% do total de cientistas e engenheiros do País. "Tenho a mesma idade que meu marido, estou no pós-doutorado e ele ganha dez vezes mais que eu", conta Anamaria Camargo, geneticista de 28 anos, casada com um redator de publicidade. "Com o que eu recebo, seria difícil manter a família." A situação é comum entre as pesquisadoras. A psiquiatra Helena Samaia, que está fazendo doutorado sobre as causas genéticas das doenças psíquicas, já trabalhou 18 horas por dia, mas garante que jamais ganhou mais que o marido, que é agrônomo. (Colaborou Gabriela Athias)


