Washington, 29 (AE) - Horas depois do anúncio oficial em Quito, na última sexta-feira, do acordo com o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial que permitirá ao governo do Equador adiar pagamento de juros e buscar uma renegociação sem precedentes de US$ 6 bilhões em bônus Brady com seus credores, o lobby dos grandes bancos de outras instituições financeiras privadas em Washington advertiu que essa solução é "arriscada" e marca, potencialmente, uma importante guinada e o fracasso parcial da estratégia e tratamento do endividamento externo das economias emergentes. Mais: ela pode dar o resultado oposto ao pretendido, complicar ainda mais as chances de recuperação econômica do pobre país andino e ter um efeito negativo para outros países emergentes. Convencido de que não há solução para o Equador sem um alívio do serviço de sua dívida externa, o FMI ofereceu ao país um crédito de US$ 400 milhões até o fim do ano que vem, mediante o compromisso de execução de um duro programa econômico, que começará com a troca da ministra das Finanças, Ana Lucia Armijos, nesta terça-feira.
"Todos os esforços devem ser feitos pelos equatorianos, pelo Fundo e pelo Banco Mundial para consultar a comunidade financeira e encontrar alternativas a uma reestruturação dos bônus Brady", afirmou Charles Dallara, um ex-alto funcionário do departamento do Tesouro que dirige o Instituto de Finanças Internacional (IIF), uma associação de trezentos grandes bancos e corporações financeiras globais, com sede em Washington. "O Equador enfrenta uma situação econômica crítica e escassez de divisas, mas não está claro que uma renegociação de seus bônus Brady fará muito em termos de aliviar a pressão financeiras", afirmou Dallara. A renegociação dos Bradies "pode prejudicar as perspectivas de retorno (do Equador) ao mercado por um longo período".
O Bônus Brady são papéis garantidos por bônus da dívida pública dos Estados Unidos. Introduzidos em 1989, na gestão do secretário do Tesouro Nicholas Brady, eles substituíram, com deságio, as obrigações externas não securitizadas que os países em desenvolvimento detinham e possibilitaram os acordos que encerram, já nesta década, a crise de endividamento dos anos 80. O valor de mercado dos cerca de US$ 160 bilhões de Bradies no mercado é, hoje, de aproximadamente US$ 90 bilhões.
Para o porta-voz dos banqueiros, renegociar os Bradies do Equador "é uma abordagem arriscada para tratar dos problemas de um país que merece nossa atenção mas fez pouco para mostrar ao mundo que está preparado para executar as reformas econômicas necessárias". Dallara censurou o FMI e o Banco Mundial, e, indiretamente, o Departamento do Tesouro, que está por trás do endosso do setor oficial ao que o mercado financeiro já considera o primeiro calote nos bônus Brady. "Eles parecem estar dispostos a colocar em jogo um princípio básico das finanças internacionais por causa de um país cuja capacidade para reformas é muito questionável", afirmou ele.
O apoio da comunidade financeira oficial à renegociação da dívida externa, nos termos oferecidos pelo Equador, "marca, potencialmente, uma importante guinada" e representa um fracasso "de certos aspectos da estratégia (de renegociação da) dívida nos anos 90", disse Dallara. "Uma bem sucedida partilha do ônus (entre credores oficiais e privados) deve ser feita por meio dos mecanismos do mercado e não por renegociação forçada", concluiu Dallara.
As declarações do diretor do IIF expressam uma das duas teses suscitadas pela decisão do FMI de respaldar o adiamento, pelo Equador, de um pagamento de juros de US$ 94 milhões e a busca da renegociação de sua dívida externa de US$ 13 bilhões - que excede o PIB nacional e cujo serviço, se fosse, honrado, consumiria este ano 42% do orçamento do governo.
A primeira é de que o Equador é um caso único, não faz parte da liga dos países endividados para os quais foi montada a estratégia da dívida seguida pelo FMI, sob orientação do Grupo das Sete potências industrializadas, que controlam a instituição. De acordo com essa visão, a solução equatoriana teria aplicação apenas em economias marginais, como a Ucrânia, a República Moldava e o Paquistão.
A segunda tese é a que preocupa Dalla e analistas e operadores de Wall Street ouvidos pelo Estado na semana passada. Eles temem que a solução que será tentada no caso do Equador abra um precedente e anime outros países - não só e na América do Sul, onde a recessão e a fadiga das reformas municiam um populismo ressurgente - a suspender pagamentos de suas obrigações e buscar o apoio da comunidade financeira oficial para forçar os credores privados à renegociação.
"O medo de todos é que o Equador sirva de exemplo para a Venezuela, que é a quarta maior economia na América Latina e está na mesma liga do Brasil", disse Edmar Bacha, diretor, em Nova York, do banco de investimentos austro-brasileiro BBA Creditanstalt. Pessoalmente, Bacha acredita que o tratamento da crise equatoriana não terá efeito de contágio. "O Equador é um caso muito peculiar", disse ele. Para o economista brasileiro, é exatamente por isso que o Tesouro americano está apoiando a renegociação dos Bradies. "A preocupação do Tesouro é a de isolar o caso do Equador e reafirmar sua estratégia para a dívida", impedindo que o tratamento da crise financeira do país "se torne um pretexto para a Venezuela", disse ele. Ele observou que a negociação de um crédito de até US$ 3 bilhões do FMI para a Colombia tem o mesmo objetivo preventivo.
De fato, ao explicar, na semana passada, o apoio da administração Clinton à renegociação dos Bradies um alto funcionário do Tesouro enfatizou o resultado da negociação do Equador com seus credores oficiais e privados - o primeiro teste da decisão do G-7 de não mais privilegiar os bancos e demais credores privados nas crises de pagamentos nos países emergentes - não deve ser tomado como um precedente. Num recado dirigido também a governo de nações endividadas, o funcionário afirmou que "o mercado não deve ver a América Latina em geral e os mercados emergentes em geral sob o prisma do Equador".

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