Dimitri do Valle
De Curitiba
A desocupação da Praça Nossa Senhora de Salete, durante a madrugada de sábado, permaneceu sendo o principal assunto da agenda política em Curitiba no dia de ontem. Manifestações e reuniões pró e contra a desocupação marcaram a tarde na capital. O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) liderou uma comissão que foi ao gabinete do governador Jaime Lerner (PFL) para repudiar o despejo dos sem-terra. Lerner também recebeu apoios de representantes de associações de moradores e empresários por ordenar a desocupação.
A tarde iniciou com um manifesto de solidariedade de lideranças políticas e religiosas a favor do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no plenarinho da Assembléia Legislativa. Elas condenaram a desocupação da praça em frente ao Palácio Iguaçu. Um dos mais exaltados era o presidente nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Dom Tomás Balduíno. Ele comparou o governador a ‘‘Herodes’’.
Dom Tomás se inspirou nos enfeites natalinos colocados na sede do governo estadual para comparar Lerner ao rei egípcio. ‘‘A história do presépio artificial dentro do palácio contradiz com a destruição de muitos presépios vivos na praça, com seus barracos, e suas crianças horrorizadas com a violência da polícia’’, afirmou o bispo.
O presidente da CPT acusou a Polícia Militar de ‘‘práticas nazistas’’, por obrigar mulheres do acampamento a saírem dos barracos ‘‘em trajes íntimos’’. ‘‘Estou perplexo com a corrupção institucional da polícia que é usada para realizar vinganças e humilhações, de utilizar táticas nazistas’’, afirmou.
Na madrugada de sábado, cerca de 750 policiais militares fecharam um cerco ao Centro Cívico e esperaram um oficial de Justiça no início da manhã para realizar o despejo, distribuindo os cerca de 300 acampados em 12 ônibus que seguiram para 23 cidades do Estado. Houve tumulto quando líderes do movimento tentaram furar o cerco e impedir o despejo.
O advogado Darci Frigo, um dos presos durante a operação de desalojamento, também partiu para comparativos durante a entrevista, ao condenar a ação do governo. Disse que Lerner, como descendente de judeus poloneses, deveria se lembrar o que os nazistas praticaram contra a comunidade judaica do Gueto de Varsóvia, durante a Segunda Guerra Mundial.
Os senadores Roberto Requião (PMDB) e Eduardo Suplicy (PT-SP) reforçaram os repúdios ao despejo. Requião fez um pronunciamento rápido. ‘‘Não tivemos um despejo, mas um espetáculo político de um governo que não governa’’, disparou. Suplicy disse que a ação policial de sábado era vista com reprovação. ‘‘É preciso agilizar o processo de reforma agrária. Não podemos admitir os procedimentos aqui descritos. As arbitrariedades foram cometidas sem necessidade’’, opinou.

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