CPT documenta explosão de violência no campo
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 19 de abril de 2005
Andréa Lombardo<br>Equipe da Folha 
Curitiba- Nas duas décadas em que a Comissão Pastoral da Terra (CPT) documenta os conflitos agrários no Brasil, nunca houve tantos casos de violência como os registrados no ano passado. A publicação ''Conflitos no Campo Brasil-2004'' lançada, ontem, em todo o País aponta a ocorrência de 1.801 casos, envolvendo mais de um milhão de pessoas. Pela primeira vez, a CPT comparou os dados com a população do meio rural e descobriu que um em cada 29,4 habitantes do campo esteve envolvido em conflitos.
O Paraná continua figurando entre os cinco primeiros colocados no ranking entre os demais estados em todos os indicadores de violência analisados pela CPT. Em 2004, o Paraná teve 61 conflitos em que 7.853 famílias estiveram envolvidas, ficando atrás de Pernambuco (156 conflitos e 25 mil famílias), Pará (74 conflitos e 9,6 mil famílias), Maranhão (80 conflitos e 5.542 famílias) e São Paulo (71 conflitos e 11 mil famílias).
Segundo dados da publicação que traz na capa a foto da missionária norte-americana Dorothy Staing, assassinada em fevereiro, no Pará houve denúncias de trabalho escravo em 236 fazendas, com 6.075 trabalhadores envolvidos. Entre estes, 3.221 pessoas, das quais 127 eram menores, teriam sido libertadas. O Paraná teve um registro de exploração no trabalho de 300 pessoas, em uma usina.
Para o secretário-executivo da CPT no Paraná, Jelson Oliveira, a tendência de aumento da violência e do trabalho escravo é percebida, especialmente, nas regiões onde há um crescimento mais acentuado do agronegócio. A análise é sustentada pelo fato de que a maioria dos conflitos se deu na região centro-oeste do País.
No Paraná, destacou Oliveira, a relação entre os conflitos e o desenvolvimento do agronegócio também é evidente, já que houve maior registro de casos na região central (Candói, Quedas do Iguaçu, Rio Bonito do Iguaçu), onde, para a CPT, existe maior concentração de ''latifúndios'' e, também, de denúncias de atuação de milícias armadas. Segundo o relatório da CPT, 25% dos casos de conflito tiveram participação de ''milícias privadas''. A comissão considera ''milícia'' qualquer tipo de segurança armada, mesmo aquelas, em tese, legalmente constituídas.
O assessor episcopal da CPT-PR, dom Ladislau Biernaski, acredita que a ''propaganda'' de que o Paraná é uma ''ilha de prosperidade'' no País em relação à atividade agrícola, provocou uma leitura errada da situação no campo. ''Se está tudo correto, não há razão para a existência dos movimentos sociais e isso vai acirrando os ânimos e incentivando a formação das milícias privadas'', ponderou.
Para dom Ladislau, é falsa a idéia de que a estrutura fundiária no Paraná é exemplo para o Brasil. Ele defende que a reforma agrária só irá acontecer, de fato, quando essa estrutura for revista, seguindo o exemplo de outros países que demarcaram módulos máximos de terra para a propriedades rurais.
Outro dado que, para a CPT-PR, chama a atenção é o crescente número de movimentos dissidentes ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e outros independentes, formados por afrodescendentes e indígenas. As 45 ocupações de terra registradas, em 2004, no Estado, tiveram a participação de 10 diferentes grupos. ''Cada vez mais a bandeira da reforma agrária não é só do MST, mas uma demanda da sociedade'', analisou Oliveira.
SAIBA MAIS
Os conflitos no campo em 2004
NO BRASIL
- O maior índice de conflitos, nos 20 anos em que a Comissão Pastoral da Terra (CPT) faz essa documentação, deu-se no ano passado.
- Foram registrados 1.801 casos, o que representou um crescimento de 6,5% em relação a 2003 (1.690), quando o aumento na comparação ao ano anterior havia sido de 82%.
- Um em cada 29,4 brasileiros que moram no campo se envolveu em conflitos. No Mato Grosso do Sul, a proporção é de um para cada cinco habitantes; no Mato Grosso do Sul, um para 7,3; e em Goiás, um para 7,4.
- O número de assassinatos recuou 46,6%: de 73, em 2003 para 39, no ano passado.
NO PARANÁ
- O Estado ficou na quinta posição entre os demais estados em número de conflitos, registrando 61 casos, com envolvimento de 7.853 famílias.
- Figurou na terceira posição em número de ocupações de terra: 45 registros, envolvendo 5.740 famílias.
- As desocupações tiveram crescimento de 57%, o maior desde a década de 90 e o quarto maior do País. Foram 46 casos de despejos, envolvendo 5.727 famílias.
- O Paraná registrou dois assassinatos no campo: do sem-terra Elias Gonçalves de Meura, 20 anos, durante ocupação da Fazenda Santa Filomena, em Guairaça, e de Eduardo Moreira da Silva, 25 anos, no assentamento Marcos Freire, em Rio Bonito do Iguaçu.
Fonte: Comissão Pastoral da Terra do Paraná (CPT-PR)


