Curitiba, 30 (AE) - A Comissão Pastoral da Terra (CPT) denunciou hoje que seis sem-terra foram torturados durante a desocupação da Fazenda Santa Maria, na quinta-feira (29) à tarde
em Ortigueira, a 300 quilômetros de Curitiba. Eles estão presos
acusados de formação de quadrilha, posse ilegal de armas e cárcere privado, pois estariam mantendo a família do capataz como refém. O sem-terra teriam sido espancados e submetidos a sessões de afogamento
A Polícia Militar nega qualquer violência, afirmando em relatório que "a ação transcorreu sem incidentes, de forma pacífica".
Cerca de 60 famílias estavam ocupando a área desde segunda-feira. Em março, a Polícia Federal havia apreendido um avião e 300 quilos de cocaína na fazenda. A desocupação, atendendo a mandado de reintegração de posse, foi acompanhada, segundo a polícia, por dois oficiais de Justiça. Várias armas teriam sido encontradas no acampamento dos sem-terra.
A CPT contesta a polícia. Segundo o coordenador da CPT, Darci Frigo, os sem-terra foram obrigados a deitar-se no chão. Depois os policiais, com uma relação, chamaram os líderes Valdecir Bordignon, Luiz Castorino de Souza, Lourival Lesse, José Pedro Calistro, Aristides dos Santos Lisboa e Arlindo de Matos, que foram levados para a beira de um córrego.
De acordo com Frigo, seis policiais encapuzados espancaram os sem-terra com cassetetes, socos e chutes. Eles teriam sido submetidos a sessões de afogamento. Hoje o delegado de Ortigueira, Valter Helmut Echert Júnior, disse que os exames feitos nos presos mostraram que dois deles tinham lesões no tórax. "Eles não disseram o que aconteceu, reservando-se o direito de só falar em juízo", disse o delegado.
Ameaças - Durante a entrevista na CPT, da qual participou o bispo auxiliar de Curitiba, dom Ladislau Biernaski, foi denunciado ainda que o líder do Movimento dos Sem-Terra no Paraná e integrante da direção nacional do movimento, Roberto Baggio, foi ameaçado e precisou passar o dia escondido com a mulher e as duas filhas.
Segundo o coordenador do MST, Rogério Mauro, duas pessoas estiveram ontem (29)na casa de Baggio, em Curitiba. Como ele estava na região de Londrina, os desconhecidos exigiram que uma de suas filhas, de 10 anos, dissesse onde ele estava, porque se não aparecesse até as 6 horas da tarde "seria prejudicado".
Outros dois telefonemas também teriam sido feitos para a sede do MST em Curitiba, por uma pessoa que se identificou como Eli, querendo saber de Baggio. Quando ele chegou de viagem, hoje pela manhã, e chegou de táxi em casa, havia um Chevette, com dois homens, parado em frente ao portão do condomínio. Quando o viram, os homens ligaram o carro e desapareceram.
Frigo disse que o fato não foi comunicado à Secretaria de Segurança Pública, limitando-se a entrar em contato com o Ministério Público para que um promotor seja designado para tomar o depoimento do líder do MST. As denúncias também estão sendo encaminhadas à Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal e à Secretaria de Direitos Humanos, do Ministério da Justiça.
Superintendência - Segundo a CPT, a saída do superintendente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) no Paraná, Petrus Emile Abib-Abib, anunciada pelo Ministério de Política Fundiária, "tende a agravar a situação" no Estado. Abib foi chamado a Brasília para assessorar o ministro Raul Jungmann, devendo deixar o cargo no próximo mês, depois de ter trabalhado por um ano e dois meses no Paraná. A atuação do superintendente era bastante criticada pelos ruralistas do Estado, que o acusavam de privilegiar o MST.
Abib, no entanto, não acredita que o ministro o tenha convidado para ser seu assessor por qualquer problemas no Paraná. "Considero uma promoção", afirmou. Nascido no Espírito Santo, Petrus Abib é formado em Direito e começou a trabalhar no Incra como agrimensor, em 1967. Ele também exerceu a função de procurador-geral do órgão em 94. Foi superintendente em Rondônia e fundou o Incra em Marabá, no sul do Pará, antes de ser nomeado para a superintendência do Paraná.

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