São Paulo, 19 (AE) - O governo está caminhando "equivocadamente" para uma dependência "muito grande" de instrumentos financeiros para custear a produção agrícola em detrimento dos instrumentos tradicionais já consolidados. A avaliação é de Fernando Homem de Melo, especialista em economia agrícola da Universidade de São Paulo, ao comentar o pacote agrícola anunciado hoje pelo governo, que entre outras medidas, lançou a Cédula do Produto Rural (CPR) com liquidação financeira.
Segundo Homem de Melo, a CPR é um bom instrumento, mas não substitui os tradicionais, como o EGF (Empréstimo do Governo Federal) por causa das taxas de juros elevadas que a operação envolve. Os juros altos seriam um fator de restrição ao instrumento, de acordo com Homem de Melo. A CPR financeira prevê liquidação em dinheiro, o que permitiria, segundo o governo, ampliar as fontes de financiamento já que investidores, internos e externos, fundos de investimento e fundos de pensão poderiam negociar o papel.
Para o analista, nenhum agente externo ao setor agrícola deve aplicar no papel se o rendimento for menor que 20%, aproximadamente a taxa de juros do mercado hoje. E as altas taxas de juros fazem da CPR financeira, segundo ele, um instrumento para poucos produtores, mais voltados para produtos negociados no mercado internacional, como café e soja. Enquanto os juros do crédito agrícola estão em 8,75%/ano, a taxa na CPR é de cerca de 20% mais aval de 0,55% cobrado pelo Banco do Brasil. "É um instrumento sofisticado, de longo prazo, que não está disponível para todos".
Homem de Melo defende que os novos instrumentos, como a CPR financeira, convivam com os antigos, que são mais abrangentes, cobrindo um maior número de produtores rurais. Segundo o analista, produtos basicamente de mercado interno, como o feijão por exemplo, precisam dos instrumentos de comercialização tradicionais, como o EGF.
Para ele, o governo deveria implementar os novos instrumentos pouco a pouco, num processo de aprendizagem, sem abandonar os instrumentos convencionais. De acordo com Homem de Melo, nos últimos anos, o valor do crédito para agricultura tem caído drasticamente em termos reais, o que indicaria a intenção do governo de abandonar a política agrícola tradicional, consolidada nos últimos 30 anos.
O analista elogiou o anúncio de um aporte de R$ 460 milhões para financiar os novos agricultores assentados pelo Incra por meio de linhas de financiamento do Pronaf. "Tudo que for feito para fortalecer o Pronaf é meritório porque o programa preencheu uma lacuna no crédito agrícola brasileiro". Na avaliação do professor da USP, o Pronaf é um bom exemplo de que instrumentos antigos devem conviver com os novos.

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