São Paulo, 27 (AE)- O Banco Central estará de prontidão na abertura dos negócios nesta manhã e não há dúvida de que tentará evitar a deterioração das expectativas, decorrente do inesperado desfecho da sessão da CPI do Sistema Financeiro que culminou com a ordem de prisão do economista Francisco Lopes, ex-presidente do BC. Não há uma estratégia deliberadamente montada para intervenções da autoridade monetária nesta terça-feira de leilão de títulos do Tesouro Nacional. Mas, historicamente, em momentos de exacerbada inquietação, o BC tende a atuar nos segmentos expostos à maior volatilidade de preços. Desde meados de janeiro, o mercado de câmbio é o mais suscetível às bruscas mudanças de posição dos investidores, e ontem pela manhã já era possível observar maior pressão dos bancos para zerar posições vendidas.
Isto não significa dizer que o dólar vai superar nesta terça-feira as expectativas mais pessimistas. Experientes operadores acreditam, inclusive, que pesa a favor do BC o fato de o mercado retomar os negócios nesta manhã, contando com sua atuação - fato que pode inibir ordens de compra, dada a elevada probabilidade de o BC interferir nas operações interbancárias garantindo liquidez às instituições dealers. O mercado acionário é outro que poderá ser sacudido nesta terça - dia em que o ex-diretor de fiscalização Cláudio Mauch presta depoimento à CPI sem ter, necessariamente, a mesma disposição para o jogo de cena de Francisco Lopes, que poderá custar caro ao País.
A prisão em flagrante de Francisco Lopes provocou, ontem no final do dia, a guinada da bolsa brasileira, cujo índice caiu ao menor nível registrado no mês. A valorização do Ibovespa em dólar - que chegou a 10% ao final da primeira quinzena - foi reduzida a 2,43%. No ano, o ganho real ainda é significativo, de 13,20%. A queda acelerada desta segunda-feira foi resultado da execução de rápidas ordens de venda de investidores locais, que se misturaram a uma avalanche de consultas de investidores e administradores de capital estrangeiro no País, interessados em entender o que estava ocorrendo e prever os dedobramentos da opção de Lopes pelo silêncio recomendado por seus advogados.
Apesar da tensão que ronda o mercado, profissionais consultados ontem à noite pela AE-Broadcast não estavam convencidos de que as ações brasileiras vão sucumbir nesta terça-feira. A realização lent a e constante de lucros pode ser, porém, uma alternativa mais perversa que a desova acelerada de ações, porque, a médio prazo, o mercado tende a ficar atolado numa instabilidade incontrolável e possivelmente prolongada. O sentimento dos operadores é de que os investidores estrangeiros não sairão desfazendo suas carteiras a torto e a direito. Mas, alertam, os estrangeiros tampouco estão a vontade num país onde proliferam dúvidas sobre a conduta do Banco Central e o efetivo empenho do governo em apurar as denúncias de favorecimento ao mercado com informações privilegiadas.
Ontem à noite não havia consenso de que a opção do ex-presidente do BC pelo silêncio foi a melhor saída para quem se considera vítima de acusações infundadas, e após o anúncio da nota divulgada pelo porta-voz da Presidência da República, revelando decepção com a atitude de Lopes, cresceu a percepção de que Lopes perdeu completamente qualquer possibilidade de apoio de FHC que a esta altura tenta "salvar a Pátria". A nota do Planalto e outra do BC - em nome de seu atual presidente Armínio Fraga mostrando que a instituição está pronta a colaborar com a CPI - não chegaram a tranquilizar o mercado, que observa com cautela a tentativa do presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA), e do presidente do PMDB, Jáder Babalho, de evitar a convocação do ministro da Fazenda Pedro Malan para prestar depoimento à CPI do Sistema Financeiro.
A super proteção dedicada ao ministro está potencializando sua fragilidade diante dos fatos que envolvem o Banco Central - que está sob seu comando. Ontem à noite em entrevista ao programa Roda Viva da TV Cultura, o presidente FHC insistiu que o ministro da Fazenda não deve se pronunciar a todo momento sobre determinados assuntos, mas reconheceu que o ministro é o responsável imediato pelo Banco Central e indicou que Malan está liberado a falar à CPI, além de ser ele quem pode esclarecer a razão da demora da instituição em intervir no mercado de câmbio no final de janeiro quando a cotação do dólar aproximou-se de R$ 2,20.
Juros - Além da mobilização de pesos-pesados do Senado na CPI do Sistema Financeiro - que ontem quebrou o sigilo bancário, telefônico, fiscal e postal de Francisco Lopes e os sócios da Macrométrica e colocou os bens de todos em indisponibilidade - o mercado tem a administrar sua própria expectativa com mais um corte das taxas de juros e a inquietação de investidores internacionais com o desempenho da balança comercial brasileira, que no primeiro trimestre do ano acumulou déficit de US$ 815 milhões. As operações de repasse de dinheiro com lastro em depósitos interbancários seguem cotadas abaixo do juro praticado no mercado aberto, e mais um se passou sem que o Banco Central tivesse anunciado a redução da taxa Over/Selic cuja meta ainda é de 34% com "viés de baixa". Credenciada fonte do governo reconhece a necessidade do corte dos juros e a ansiedade do mercado, mas pondera que n uma situação de nervosismo o BC tende a redobrar a cautela ao promover uma redução mais rápida dos juros. Esta fonte concorda que no curto prazo, custo de dinheiro mais baixo tende a facilitar a administração de expectativas e a aumentar a tranquilidade das instituições. Mas, a médio prazo, se o cenário se agravar e o BC tiver que usar o juro como defesa contra movimentos especulativos, o grau de elevação da taxa tende a ser relativamente muito maior que o corte que pode ser promovido no curto prazo.
Ontem, o BC não atendeu às expectativas do mercado e o juro permaneceu dentro do previsto na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) realizado no último dia 14. Até ontem à noite, o BC tampouco revelava a intenção de assumir uma postura defensiva colocando à venda, nesta manhã, títulos indexados à taxa de câmbio para conter eventuais pressões sobre o dólar. Mas, continuava de pé a decisão de vender R$ 4 bilhões de papéis do Tesouro Nacional - R$ 1 bilhão de LTN de 91 dias e R$ 3 bilhões de LFT de 371 dias.

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