CPI sobre espionagem divide deputados europeus Do correspondente Reali Júnior
Paris, 31 (AE) - Os grupos políticos com representação no Parlamento Europeu estão divididos sobre a necessidade de criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar se o sistema de escuta Echelon, liderado pelos norte-americanos e com participação da Grã-Bretanha, Canadá, Nova Zelândia e Austrália, praticava ou não espionagem comercial e industrial, até mesmo junto a seus parceiros europeus.
Um total de 171 deputados europeus, verdes, comunistas e da extrema esquerda assinaram um documento solicitando a constituição dessa comissão com base no relatório preparado a pedido da Comissão Européia. No relatório, são citados, mas não provados, dois casos em que empresas norte-americanas puderam obter dois importantes contratos em detrimento da Airbus e da Thomson francesas.
Em um deles, o contrato do Sivam, assinado com o governo brasileiro, que irá garantir o controle aéreo da Amazônia, a empresa beneficiada foi a Raytheon norte-americana. O segundo caso diz respeito à venda de aviões civis para a Arábia Saudita, em que a Boeing teria atravessado uma negociação da Airbus.
Esta semana, em Bruxelas, no debate organizado pelos 15 países que compõem a União Européia, ficou claro que nenhum deles tem como se opor a esse sistema de espionagem eletrônica que estaria prejudicando empresas européias.
Mesmo as empresas interessadas, no caso a Airbus e Thomson, não apresentaram queixas nem encaminharam informações que pudessem comprovar que a perda desses contratos ocorreu graças a informações captadas pelo Echelon.
O grupo francês Thomson preferiu não se manifestar sobre o assunto, decidindo virar a página do passado, mesmo porque essa empresa se apresenta hoje como associada da Raytheon norte-americana em outros projetos.
Se os verdes, os radicais de esquerda e os comunistas exercem pressão em favor da formação de uma CPI para apurar uma possível espionagem eletrônica, além de exigir sanções contra a Grã-Bretanha por falta de solidariedade comunitária, os grupos mais importantes com representação no Parlamento - conservadores do PPD, os liberais e o grupo socialista - são contrários ou pelo menos mantêm uma posição bem mais discreta sobre o assunto.
A deputada Ewa Klamt, conservadora da CDU alemã, pergunta com uma dose de ironia como se poderá investigar o alcance dessa espionagem. "Talvez convocando para depor o próprio presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton", diz ela.
Hoje, os EUA já reconhecem, ao contrário do passado, a existência desse importante sistema de escuta, cujas "grandes orelhas" têm capacidade para escutar o mundo, mas nada prova que ele tenha sido utilizado para prejudicar empresas européias na disputa comercial com as norte-americanas.
A Comissão Européia chegou a admitir que "as possibilidades tecnológicas para interceptar as comunicações eletrônicas existem", mas isso não prova que certos contratos tenham sido ganhos por firmas norte-americanas por meio da ajuda do sistema Echelon.
Por isso, poucos são os que acreditam que será possível reunir um número suficiente de votos na próxima semana, quando o plenário do Parlamento, reunido em Estrasburgo, vai decidir se cria ou não a comissão de inquérito. O próprio Conselho de Ministros da União Européia não deverá tratar desse assunto na sua reunião de maio.
O Departamento de Estado dos Estados Unidos informou nesta semana que "a comunidade de informação norte-americana não está comprometida com espionagem industrial de seus parceiros europeus".
Seja como for, James Woolsey, antigo diretor da CIA, em recente entrevista ao jornal francês Le Figaro, afirmou que essas "grandes orelhas" anglo-saxãs recolhem e filtram tudo o que se diz e se envia pelo mundo, mas muitas vezes para se proteger da política de pagamento de polpudas comissões praticada pelos europeus para obtenção de contratos junto a certos países.
Isso irritou a bancada socialista, provocando uma rápida resposta do deputado europeu Enrique Baron: "Eis o porteiro do bordel pregando virtude."





