Brasília, 21 (AE) - A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico na Câmara recebeu este mês um levantamento dos aeroportos mais "vulneráveis" de São Paulo, Rio e Minas Gerais, por onde estaria entrando a maior parte da droga consumida nesses Estados. O relator da CPI, Moroni Torgan (PSDB-CE), vai sugerir no relatório a criação de um grupo específico nas Polícias Civis para fiscalizar aeroportos.
Estão na lista os aeroportos de Penápolis, Atibaia, Sorocaba, Campinas, Americana, Limeira, Mogi-Mirim, Araras, Rio Claro, Marília, Avaré e Botucatu (Pista da Usina), no interior de São Paulo. No Rio, estão os de Nova Iguaçu e Volta Redonda. Em Minas Gerais, os de Guaxupé, Machado e Varginha.
"Nenhum deles tem fiscalização adequada", disse Moroni
delegado licenciado da Polícia Federal (PF). Ele afirmou que não vai fornecer as fontes de informações do levantamento, para evitar perseguições.
Segundo o relator, os pequenos aeroportos são mais vulneráveis porque as principais operações de repressão às drogas ainda são feitas em grande portos e aeroportos. Ele acredita que a estratégia esteja associada aos interesses dos Estados Unidos, de combate à droga que abastece o mercado norte-americano. "Combate-se muito o que passa pelo Brasil e não o que fica."
Ao concentrar as investigações nas rotas internacionais do tráfico, disse Moroni, o País incentiva o aumento do consumo em cidades do interior paulista, que têm renda per capita igual à de muitos países desenvolvidos. "O Brasil passou a ficar com a droga porque o traficante viu aqui uma grande opção de consumo."
Em São Paulo, de acordo com Moroni, o tráfico despeja a cocaína da Bolívia e da Colômbia em pequenos aeroportos e a redistribui de caminhão para grandes aeroportos e portos. Parte fica no Estado. "Em Ribeirão Preto (SP), cheira-se cocaína como na Europa."
O deputado acredita que a opção pelos pequenos aeroportos ocorra por causa da falta de policiamento e de fiscalização adequada dos órgãos de controle aéreo. Ele vai sugerir, no relatório final da CPI, que as Polícias Civis criem grupos especiais para controle dos aeroportos.
Pelos levantamentos realizados pela PF nos últimos meses
a droga que chega aos pequenos municípios é quase toda proveniente da Colômbia. A cocaína é levada em pequenos aviões até Pedro Juan Caballero, no Paraguai. Depois, segue em caminhões, carros, pequenos aviões e até ônibus para Dourados e Ponta Porã (MS) e, de lá, para o interior de São Paulo. "Muitas vezes, ela fica camuflada em tanques ou mesmo nas carrocerias dos caminhões", diz o superintendente da PF em Mato Grosso do Sul, Francisco Mallmann.
As revelações do relator causaram desconforto em alguns dos municípios citados. A Polícia de Marília estranhou a inclusão da cidade na rota do tráfico. Segundo o delegado Pedro Luiz Ceren, nunca houve apreensões no aeroporto, embora ele admita que o tráfico possa ocorrer em pistas clandestinas na zona rural.
Em Limeira, o comandante da Guarda Municipal, capitão Enaudo Bahe da Silva, negou que o aeroclube seja ponto do tráfico. Para ele, a questão é mais séria em outras cidades da região, como Piracicaba (SP).
Botucatu também discordou da existência de tráfico no aeroporto. "Estou há cinco anos aqui e nunca houve apreensão lá", disse o delegado Roberto de Mello Aníbal. Em Sorocaba, não há registro recente de tráfico no aeroporto.
O administrador do Aeroporto de Penápolis, Tertuliano Gonçalves Filho, também não tem registro. "Se é que existe o tráfico de drogas por aqui, a gente não vê ou não percebe."
A PF apreendeu 560 quilos de cocaína este ano em cerca de cem municípios da área da delegacia de Bauru. Metade da droga
avaliada em R$ 3 milhões, foi apreendida quando era descarregada de aviões. Segundo o delegado-chefe Antônio Vaz Oliveira, os traficantes recorrem geralmente a pistas usadas por aviões agrícolas.
Para o gerente do Aeroclube de Campinas, Odair Alves da Silva, o aumento da fiscalização nos aeroportos do interior seria bem-vindo. A medida também é aprovada por Americana e Mogi-Mirim.

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