CPI prende dois suspeitos de chefiar tráfico em Campinas
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quinta-feira, 18 de novembro de 1999
Por Fausto Macedo 
Campinas, 18 (AE) - O estilo prende e arrebenta da CPI do Narcotráfico produziu as duas primeiras baixas no crime organizado de Campinas. Às 3h05 da madrugada de ontem (17), o advogado Arthur Eugênio Mathias, apontado como o "braço jurídico" de uma poderosa organização de comerciantes de drogas
ladrões de carretas e policiais corruptos, foi preso por determinação judicial. Às 23h30, foi a vez de o delegado Ricardo de Lima, ex-diretor da Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes (Dise) de Campinas, ser levado para a cadeia sob acusação de corrupção passiva, tráfico de drogas, formação de quadrilha e prevaricação. Os dois deixaram o Fórum Criminal da Campinas algemados.
Além de formação de quadrilha, Mathias é acusado de receptação de mercadorias roubadas, associação para tráfico internacional de cocaína, corrupção e latrocínio (matar para roubar). A comissão sustenta que o advogado é um dos principais articuladores do grupo comandado pelo empresário Willian Sozza, tido como o elo financeiro e logístico do esquema montado em Campinas, com ramificações em 14 Estados.
Lima foi denunciado à tarde, após depor, por irregularidades no flagrante de apreensão de 340 quilos de cocaína em 26 de janeiro. A droga, avaliada em R$ 22,2 milhões, acabou sendo roubada seis dias depois do posto do Instituto Médico Legal (IML). A apreensão havia sido feita numa chácara em Indaiatuba. Seis traficantes foram capturados pela Polícia Militar, mas Lima autuou apenas cinco. Uma mulher, Sônia Aparecida Rossi, apontada como chefe da quadrilha e já condenada a 33 anos e 11 meses de prisão, foi ouvida por Lima na condição de testemunha e liberada.
Abalo - O relator, deputado Moroni Torgan (PFL-CE), disse que a prisão de Mathias "vai abalar o alicerce do crime". As ordens de prisão temporária contra o advogado e o delegado - por 30 dias - foi expedida pelo juiz-corregedor Paulo Eduardo de Almeida Sorci - a de Mathias, às 2h50, enquanto era interrogado e acareado com dois assaltantes, e a de Lima, às 22h40.
Às 2h05, os deputados Pompeo de Mattos (PDT-RS) e Robson Tuma (PFL-SP) deixaram discretamente o Palácio da Justiça com o texto do mandado de prisão de Mathias e seguiram até a casa do magistrado numa perua Van da PF. Sorci já aguardava os parlamentares e apenas assinou o decreto, amparado em parecer assinado por seis promotores de Justiça.
A decisão foi lida pelo presidente da CPI, deputado Magno Malta (PTB-ES). Segundo o juiz, "há indícios de autoria e materialidade envolvendo o representado como participante dos crimes apurados".
Abatido, Mathias ouviu em silêncio o anúncio da prisão. Malta pediu ao acusado que ficasse de pé. "O senhor está preso", ordenou. Em silêncio, o advogado estendeu os pulsos para a frente. Um agente federal o algemou. Levado no camburão da PF, foi recolhido ao quartel do 8.º Batalhão da PM.
A prisão estava decidida desde a tarde de terça-feira, mas a comissão adiou seu anúncio porque trabalhava com a hipótese de que Mathias se dispusesse a delatar todo o esquema em troca da liberdade.
Proteção - Os deputados estão convencidos de que o delegado Lima poupou a traficante Sônia Rossi da prisão, após a apreensão dos 340 quilos de cocaína, "no mínimo, por conivência". Ela foi detida semanas depois, mas fugiu da Penitenciária do Tatuapé
na capital, resgatada na garupa de uma motocicleta. Outro acusado, Cláudio Santos, fugiu no início do mês da Penitenciária de Guarulhos. Estava convocado para depor.
O juiz Sorci argumentou que a prisão de Lima servia para "viabilizar a continuidade das investigações sobre gravíssimos delitos".
O tom de desabafo usado por Lima durante o depoimento irritou os deputados. Ele disse que é um policial experiente e executa seu trabalho "dentro da lei". Contradições e respostas evasivas de Lima fizeram com que a CPI o submetesse a três acareações. A terceira foi com o assaltante Gilmar Leite Siqueira. "Agora não tem mais volta, doutor, o leite já derramou", disse Gilmar. "Não devo nada", defendeu-se o delegado.
Gilmar afirmou que conhece Lima. "Já trabalhei como informante seu, participei de ações com o senhor em apreensão de drogas e armas", revelou Gilmar. "Não vou pagar sozinho, doutor", disse Gilmar, condenado a 19 anos de prisão.
Os deputados perguntaram a Gilmar se ele sabia de ligações entre o delegado e o empresário Willian Sozza. "Vi o delegado com Sozza umas três vezes", afirmou. "Nunca vi esse Sozza na vida, juro pelos meus filhos", devolveu Lima. "Você é a laranja podre da polícia", decretou o sub-relator da Mattos.


