Vitória, 08 (AE) - A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico na Câmara dos Deputados admite a possibilidade de pedir a cassação do presidente da Assembléia Legislativa do Espírito Santo, José Carlos Gratz (PFL). Em três horas e meia de depoimento, no Palácio Anchieta, sede do governo estadual, Gratz não conseguiu convencer os quatro integrantes da comissão de que não tem mais envolvimento com a contravenção no Estado.
Os deputados apresentaram documentos que provam a participação do presidente da Assembléia na propriedade de pelo menos uma casa de bingo em Vitória, com a qual é acusado de corrupção ativa, e de ter o nome citado no caso do assassinato do comerciante João Luiz da Silva, em julho.
"Qualquer casa de jogo só pode ser aberta no Espírito Santo com a autorização de Gratz, que exige participação nos negócios", disse o deputado Antônio Carlos Biscaia (PT-RJ).
"Apesar de ele alegar que não tem mais envolvimento com a contravenção desde que entrou na política, há dez anos, temos a certeza de que isso não é a verdade." As principais peças contra o deputado são um depoimento em juízo e uma produção antecipada de prova assinada pelo empresário paulista Franklin Plácido Compozana, sócio de Gratz num bingo do Canto, em Vitória. No depoimento, realizado na 7.ª Vara Criminal, em 22 de junho, Compozana acusa Gratz de ter-lhe mandado pagar, com um cheque em nome dele, de R$ 1.400,00, ao titular da Delegacia de Costumes e Diversões, Aristides Ferreira Lima, para a liberação de máquinas de videobingo.
Gratz alegou na CPI que assinava cheques em branco que eram entregues ao gerente da casa de jogo, Ronaldo Braga, para pagamentos de despesas do estabelecimento. "Já entrei com um processo contra o Compozana por calúnia e difamação", disse. Mesmo assim, o deputado alegou que, apesar da denúncia, ele continua sócio do empresário paulista.
Na produção antecipada de provas, Compozana vai além. Explica que há no Espírito Santo uma "associação" de contraventores que corrompem autoridades do Estado. O líder do grupo seria o banqueiro de bicho Antônio Carlos Barroso, que controla as bancas de Vila Velha, e que, segundo Compozana, foi quem lançou Gratz na política.
"O Bingo do Canto, mesmo sendo absolutamente legal, não escapou ao assédio do sindicato da contravenção", afirma o empresário, que alega ter sido forçado a aceitar a sociedade com o deputado no empreendimento. Gratz tem 25% das cotas do bingo.
O presidente da Assembléia disse aos deputados que não se lembrava de ter recebido um cheque de R$ 20 mil de Silva, assassinado em 3 de julho. Em depoimento à polícia, Silva contou que recebeu um cheque do agiota Lucílio Cavalcanti da Silva como empréstimo para pagar uma dívida com Gratz. Depois de 20 dias, porém, o cheque foi sustado por falta de pagamento.
"Quando o deputado foi tentar descontar o cheque, dois meses depois, ele viu que estava sustado", contou o relator Moroni Torgan (PSDB-CE).
"Aí, ele começou a cobrar de José Luiz", explica. O comerciante, que apareceu morto logo em seguida, era dono de um bar em Vitória e cabo eleitoral de Gratz.

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